colecionando estrelinhas caídas na areia

Histórias da Escuridão


 

HISTÓRIAS DA ESCURIDÃO

Uma fábula sobre os descaminhos da esperança
PROLOGO
Eram tempos de desespero, onde se fica fácil perder a esperança. Foi então que um jovem iniciou uma longa jornada e somente lhe disseram que…

…Caminha-se muito até chegar ao Reino de Íbis. “Exagero” pensou, “as pessoas vêem tanta dificuldade nos desafios que, em muitas vezes, ignoram o lado simples das coisas.”

- Bem, às vezes, você também tem que dar o braço a torcer: vamos e venhamos você não é o dono da razão, Edgar. – falou em voz alta, consigo mesmo, olhando o céu, onde um sol inclemente fustigava a pele com um calor quase insuportável.

 Tudo se complicara chegando ao Vale dos Sonhos. Lá a beleza estonteante da natureza confundia a cabeça do viajante cansado e havia muitos caminhos, estradas sem identificação, a escolher. Escolhera o caminho errado, talvez, mas a sua teimosia o impedia de admitir isso. Mesmo agora, depois de ter vagado dois dias e duas noites nas areias amarelas e móveis do deserto (com os olhos horrorizados ante as carcaças de cavalos e, arrepiara-se todo, até ossadas humanas, dos que haviam fracassado antes dele), recusava-se a aceitar o fato de que estava perdido (o pai sempre lhe dissera: nunca pense negativo. Sempre que um pensamento ruim rondar a sua cabeça, bata palmas, bata palmas forte e cante: acredite em Deus!).

Por isso procurava ignorar o calor terrível dos dias e o frio irascível das noites. Seu cavalo caminhava mais devagar, agora; parecia desanimar. Edgar esticava os olhos para além do horizonte, mas não havia nenhuma promessa verde para socorrê-lo.

Com racionalidade sabia que estava perdido. Sabia que ali os viajantes, sem senso de direção, vagavam dia após dia em círculos. Fora traído pelo Vale dos Sonhos.

Ainda acreditava, porém. A alma de um homem só morre quando ele não acredita mais.

1 Por um Sopro de Vida

Não sabia dizer mais com exatidão há quantos dias vagava pelo deserto.
A água se acabara de todo e, na noite passada, comera o último pedaço endurecido de pão. Tinha fome e via fantasmas nos troncos secos e retorcidos das árvores. Seu cavalo, o velho e airoso Pégaso, mostrava-se mais resistente que ele e guiava-o corajosamente, movido por uma espécie de determinação absurda.
Foi no principio da noite que avistou a luzinha trêmula ao final de um declive acentuado. Sua mente despertou subitamente do torpor e, mais caindo do que saltando do dorso do cavalo, correu ao encontro da luz; chocando-se contra os galhos; caindo, se ferindo, levantando, sem dar-se conta da dor. Era gente sim; gente viva! Não era delírio.
- Ei! – gritou, meio desesperado, como se tivesse medo de que fugissem.
Era uma mulher vestida numa túnica preta e duas crianças que, assustadas, esconderam-se atrás dela. Ela não moveu um músculo, mas sua atitude era de defesa. Parando ante ela, Edgar teve a impressão de que mataria por suas crianças; percebeu que ela tinha medo.
- Em nome de Deus…- murmurou.
- Volte para o lugar de onde veio, estranho.
- Eu preciso de água e comida. De onde vim, só vi destruição.
- É o lugar em que vivemos.
- Pelo menos a senhora vive.
Ela ergueu a lamparina à altura do rosto dele: era bem mais alto que ela. Contemplou-o demoradamente; o olhar o deixou encabulado e abaixou o rosto. Só então viu a cruz na areia; compreendeu, então, aquele tamanho vazio em seu olhar: ela orava por seus mortos.
- Sinto muito…
- De onde vieste?
- De longe. Ia para Íbis e me perdi.
- Venha comigo. – ela deu-lhe as costas e começou a andar.
As crianças tomaram a rédea de Pégaso e começaram a puxa-lo; ele resistiu no início, mas depois se deixou levar, meio carrancudo. Pégaso era muito genioso e as crianças estavam visivelmente encantadas por ele. Edgar seguiu-os devagar, pois agora o cansaço dominara-o por completo.

2 Primeiro Impacto
Acordou com luz nos olhos, sentindo uma coisa levemente gelada no rosto. Abriu os olhos devagar e sorriu para a jovem senhora que lhe fazia curativo no rosto, passando sobre a ferida uma pasta verde.
- São ervas. – explicou.
- Dormi tão completamente que nem houve espaço para sonhos.- de fato, lembrava-se apenas de ter tomado um banho e deitar-se numa esteira, no chão da casinha pobre.
- Há café e pão. Não é muito, mas é o suficiente para matar a fome.
Edgar sentou-se à mesa e serviu-se com apetite.
- O que vai fazer em Íbis?
Ele hesitou em responder. Mas, ela era tão boa! Acreditava nela.
- Eu preciso falar com a Rainha Heliodora.
Ela olhou com estranheza. Uma sombra caindo sobre o rosto cansado:
- Mas ninguém pode falar com a Rainha Heliodora. Ela já não existe mais.
Agora foi ele quem se surpreendeu; sorriu ante o absurdo que ouvira:
- A senhora está enganada. Estou viajando há meses somente pra vê-la.
- O que você sabe sobre Íbis, meu menino?
- Falaram-me coisas boas de Íbis.
Ela se aproximou da janela e indicou o campo estéril. A poucos metros da casa, as crianças brincavam com Pégaso:
- Há alguns anos atrás esse deserto não existia. Havia paz. – ela fechou a janela e veio sentar-se junto dele. – Era tudo bom… até Ethel fazer um pacto… com os que vivem na sombra.
Edgar se arrepiou:
- Eu não entendo…
- Ethel era uma condessa poderosa que jamais se conformou ter sido desprezada pelo Rei Dimas, que preferiu se casar com Heliodora, uma plebéia, mas também a mulher mais bonita que pisou sobre essa terra. Então, Ethel se iniciou na feitiçaria e, através dela, dominou o Reino, com a ajuda de Ricardo, o Lobo. O príncipe herdeiro.
- O filho do rei!?
Ela sorriu ante a perplexidade dele:
- Todo príncipe é filho de um rei.
- Mas… como ele foi capaz!
- O mal; o mal domina as pessoas; subjuga os bons. Somente um forte pode vence-lo; mas Íbis é agora uma terra esquecida por Deus, uma terra de homens que não têm fé.
- Diga-me como poderei chegar até a Rainha Heliodora.
- Ninguém pode. Contam que é uma das escravas de Ethel, que é acorrentada pelos pulsos… Falam muitas coisas. Mas desde que Ricardo tornou-se rei ninguém entra no palácio. Ele é orientado por Ethel, que também controla a guarda real. O feitiço que ela lançou sobre o Vale dos Sonhos faz desorientar os viajantes, como você, que tentam entrar em seus domínios. Os que conseguem passar simplesmente desaparecem ou se tornam um dos escravos do mal. Por isso você deve voltar. Ensinarei o caminho que deve tomar para evitar o deserto.
- Eu prometi a meu pai que veria a rainha. Não descumprirei a palavra.
- É loucura.
- Pagarei o preço.
- Filho…
- Partirei esta noite.
- Deus esteja com você.
Ele tomou as mãos dela entre as suas e as beijou.
A noite chegou logo, encontrando Edgar ansioso. A jovem senhora aconselhara-o a usar as roupas de um soldado do Reino; assim poderia se mover tranqüilamente, sem ser notado: não suspeitariam que era ele um estrangeiro.Poderia até se aproximar de Ethel, se tivesse sorte. A roupa pertencera ao filho dela que se unira aos revoltosos e desaparecera; como acontecia a todos que se rebelavam. Os soldados de Ethel, em represália, tinham vindo à casa e matado o marido da jovem senhora; era na sepultura dele que ela chorava na noite anterior.
- Você vai precisar disso. – entregou-lhe a espada que pertencera ao filho.
- Eu nunca usei uma arma.
- Saberá usa-la no momento certo.
- Vou descobrir o que aconteceu a seu filho.
- O nome dele é Mateus. Tenha cuidado e não confie em ninguém.
- Cuidem bem de Pégaso.- disse Edgar ao se despedir das crianças. – Ele é um bocado manhoso. – jogou a mochila nas costas.- Adeus. Eu voltarei.
- Procure não ficar andando com a mochila; ela denuncia um viajante.
- Aqui estão os meus segredos.- retrucou jovialmente, piscando um olho.
A mulher sorriu involuntariamente. Edgar ficou feliz em ver aquele brilho de esperança num rosto tão sofrido.
- Não se espante ao chegar em Íbis. O sol não brilha mais ali. Aqui padecemos com a inclemência do calor; lá é o desespero das sombras que causa tormenta. É o sortilégio de Ethel.
- Então…
- O que mata em demasia, fere na ausência; você não mexe com as forças da natureza impunemente.
- Meu pai me ensinou que o mundo é equilíbrio.
- São as leis do aprendizado.
Edgar abraçou-a e agradeceu num sussurro. A senhora levou as mãos aos lábios, emocionada, e desejou-lhe sorte. Só quando estava muito longe da cabana, Edgar lembrou-se de que não perguntara o nome da mulher. Mas, com certeza, jamais esqueceria aquele rosto.

3  A Missão
Desde pequeno o pai, um humilde carpinteiro, dissera-lhe que um dia ele deveria fazer uma longa viagem.
- Quando?
- Quando fizer quinze anos.
Não sabia se isso acontecia com toda criança, mas ele esperara ansiosamente os quinze anos; e o tempo passou rápido, porque sabendo que cada coisa no mundo vem a seu tempo, ele não se preocupou exatamente que o tempo passasse rápido. Quando ele completou os quinze anos soube que deveria ir a Íbis e se encontrar com a Rainha Heliodora.
- Onde é Íbis?
- Fica longe, mas é um lugar muito bonito.
- Por que devo me encontrar com a rainha?
- Deve mostrar seu coração a ela e lhe entregará um presente.
Ele não entendeu muito bem. Outra pessoa ficaria decepcionada, mas ainda havia um certo encantamento nesse encontro que ele não conseguia definir; quem sabe se ele conseguisse impressionar poderia se tornar cavaleiro real. Imaginou mil e uma faces para a Rainha Heliodora e o Rei Dimas, mas jamais imaginou encontra-la escrava de uma feiticeira e traídos pelo próprio filho. O que seu pai diria, se lhe contasse? Deveria entregar o presente a Ethel, já que era agora a rainha?
Então…
Ploft! Esparramou-se no chão, sentindo uma dor aguda no calcanhar. Ficou um momento atordoado e quando ia sentar-se, levou uma pancadinha na cabeça.
- Mas que raios é….
- Ah, ele me atacou… ele me atacou…- gritou uma vozinha fina.
Edgar sentiu uma coisinha estranha correndo por debaixo da mão que apoiara no chão e tirou-a depressa.
- Não se mova, cão de Ethel!
Primeiro se assustou, depois achou graça. Sobre o seu peito havia um serzinho minúsculo, um homenzinho que empunhava qualquer coisa parecida com uma espada. Mas ele era pequeno demais, talvez do tamanho de sua mão. Reparando bem, havia mais alguns deles; havia muitos deles. Edgar ficou atordoado.
- Quem são vocês? Pulgas amestradas?
- Quem te mandou aqui, espião?
Vários deles subiram na barriga do rapaz, no maior atrevimento. O mais audacioso cutucava o nariz de Edgar com a espadilha e o rapaz não se conteve: espirrou forte, atirando-os longe. Os pequeninos ficaram furiosos com a afronta.
- Morte ao maligno!
- Fora, cão de Ethel!
- Vocês não acham que são muito pequenos pra me enfrentar?
Eles demonstravam muita coragem, mas corriam ante o som forte da voz do rapaz.
- Somos maiores em nossa união do que você em seu egoísmo, portador do mal!
- Que mal eu fiz a vocês?
- É cínico!
- Como Ethel! Que calhordão!
- Ele não sabe o que aquela bruxa nos fez! Éramos mágicos respeitados. Todos podiam usufruir de nossos conhecimentos. Ela nos reduziu a isso! Sem nossas habilidades e com esse tamanho…
- Somos motivos de escárnio…
- Uma chacota.
- Ela deixou vocês deste tamanho!?
- Bem, pelo menos não éramos tãão pequenos assim.
- Éramos maiores, mais altivos.
- Eram anões?
- Ele ainda zomba de nós! Que calhordão!
- Morte ao cão de Ethel!
- Per’aí homem, não falei por mal!
- Somos seres de luz, jumento ignorante. Nunca leu história de fada não?
- Ah, são duendes…!
- Duende está o seu traseiro.
- Óóóóii…
- É um calhordão.
- Prepare-se pra morrer, intruso: diga suas últimas palavras.
- Eu sou inocente.
A piada deve ter sido boa, todo mundo riu. Edgar riu também: eles eram muito engraçadinhos, esquisitinhos mesmo.
- Cala a boca! – berrou o chefãozinho. – Ninguém que beba da água de Ethel é inocente.
- Eu não sou um dos soldados do Reino; estou disfarçado. Vim de Tebar. Soube que eles prendem os estrangeiros, então consegui essa roupa com uma boa senhora. Nunca estive em Íbis. Tenho apenas uma missão a cumprir. Até ontem nunca tinha ouvido falar de Ethel e hoje já a odeio.
- Ele quer nos enganar.
- Sei não… Ele não tem aquele olhar vazio dos cães de Ethel.
- É um calhordão.
O chefãozinho voltou-se para Edgar:
- Ninguém confia em você, intruso. Mas todo homem tem direito de defesa. Jamais fomos ou seremos injustos.
- Eu falo a verdade.
- Nós somos luz de orientação, embora tenhamos sido privados de nossos poderes. Nossa missão é orientar os viajantes para que eles não se percam. Ethel nos amaldiçoou. Pois bem, se algum dentre nos se manifestar em seu favor, estará livre.
Um a um os homenzinhos foram-se afastando, cabisbaixos como que envergonhados por ter de desprezar o viajante.
- Não podemos protege-lo. Se ele diz a verdade, deve voltar.
- Eu também tenho uma missão! – protestou o rapaz.
Caiu um silêncio estranho entre eles. Edgar sentiu medo.
- Eu morreria por ele.
Aquela voz fez o rapaz estremecer. Virou-se e viu, sentada sobre uma pedra, uma criaturinha linda de cabelos negros muito longos e que tinha uma gota de diamante na testa.
- Mariel! – censurou o chefe.
- Ele fala a verdade, meu pai. Devo orienta-lo.
- Nossa palavra não tem retorno, Mariel. Pois bem, intruso, está livre.
Edgar estava fascinado com a beleza da menininha.
- Você deve me levar com você, intruso.
“Ora, e de que me adianta uma fada sem poderes?”, pensou.
- Eu ainda posso ler pensamentos. –disse ela com um sorriso triste.
- Desculpa-me.
- É o seu direito duvidar, Edgar.
- Pavel irá com vocês, Mariel. Proteja minha filha, meu irmão.
- Logo eu? Com esse calhordão?!
- Pavel….
E logo Edgar partia, com seus dois novos amigos no bolso do blusão.

4 Presença de Ethel
Chegaram em Íbis tarde da noite. As ruas estavam praticamente vazias e os archotes diminuíam a escuridão das vielas tortuosas. Edgar estava com fome e sentou-se na escadaria de uma capela; abriu o bolso e Mariel e Pavel saíram para respirar ar puro.
- Como um pão assado se sente mal, pelo céu! – reclamou Pavel, enxugando o suor da testa.
- Onde estamos?
- Acho que na praça do Mercado. Não há ninguém nas ruas.
- Poucos se arriscam nas noites de Íbis. Os espíritos maus povoam o ar. Você precisa arranjar uma local para dormir, Edgar.
- Estou com fome! – gritou Pavel.
Edgar tirou o pão que tinha na mochila e distribuiu entre eles. Escutaram o trotar de um cavalo; os pequeninos voltaram a se esconder no bolso.
- Ei, soldado, o que faz aí?
Devia ser algum oficial graduado.
- Descansava, senhor.
- Apresente-se em seu posto em cinco minutos.
- Sim, senhor.
O cavaleiro partiu.
- Mas… Onde diabos é meu posto?
- Em frente ao palácio, cretino.
- Pavel… Nós lhe mostramos o caminho.
- Devo ir?
- Você tenciona entrar no palácio, não?
- Claro.
- É um caminho a tentar. Chegando lá procure travar amizade com alguém, mas não se mostre curioso: aja como se sempre tivesse morado aqui. Qualquer coisa que queira saber, pergunte a mim ou a Pavel: a ninguém mais.
Pouco depois lá estava ele junto aos outros soldados, para a revisão da tropa. Os soldados eram estranhamente calados; não olhavam sequer para os lados, como se temessem ou esperassem algo. Estavam alinhados frente à escadaria do palácio, onde uma imponente porta de madeira causava apreensão. Edgar ficou impressionado com as torres que pareciam rasgar o céu escuro. O palácio era deveras bonito.
- Eles esperam Ethel. – sussurrou-lhe Pavel no ouvido, ele se escondera sob seu quepe.
- Não se pendure no meu cabelo. – grunhiu entredentes. – Isso não é cipó.
- Não fale nada e ela não te notará.
A porta de madeira se abriu e saíram dois lacaios segurando archotes acesos; logo atrás surgiu Ethel, acompanhada do chefe da guarda. Ela era alta, esguia e assustadoramente bela. Tinha um rosto marcante e um leve sorriso glacial; sua presença seduzia o olhar e dominava. Após ela havia uma mucama que segurava o manto de veludo roxo e mais dois lacaios com archotes, fechando o cortejo.
- Como sabem, amanhã começam os festejos para o meu casamento com o Rei Dimas.- enquanto falava, movia-se entre os soldados, olhando-os como se pudesse beber suas almas.- Eu quero apenas festa e tranqüilidade. Os rebeldes que ousarem perturbar a paz devem ser detidos a qualquer custo. Assim como os estranhos.-(Edgar estremeceu.)- As estradas devem ser vigiadas. Não quero que nada interfira na cerimônia de meu casamento.- ela parou diante de Edgar por um instante, sem aparentemente prestar atenção nele (até aqui o rapaz mantinha-se em pé graças a um milagre qualquer.) Antes de prosseguir, ela recuou e voltou a fita-lo, agora diretamente. – Você é muito jovem, garoto. Quantos anos tem ?
Ele engoliu em seco, mas respondeu com voz firme, um tantinho mais grossa que o habitual:
- Vinte e três, majestade.- o coraçãozinho batendo feito louco.
- Não parece.
- A senhora precisa ver mamãe: ela parece ter treze.
- Que patife! – gemeu Pavel lá debaixo do quepe, já ouvindo o som da espada vibrando no ar sobre o pescoço do rapaz.
Ethel encarou-o por um longo tempo, depois sorriu discretamente.
- Como você se chama, garoto?
- Edgar, majestade.
Ela se afastou. Ao passar pelo chefe da guarda comentou qualquer coisa com ele, mas que parecia referir-se ao garoto, pois o homem o olhava com insistência. Ethel se retirou em seguida. O rapaz estava todo suado, louco para poder sentar-se um instante, pois as pernas estavam bambas. O Capitão veio ao encontro dele, enquanto Ethel se afastava, feito uma miragem na noite. “Estou perdido”.
- Se apresente amanhã, às sete, na sala de armas, rapaz. Por ora esta dispensado. – disse em tom seco e virou-se para dar instruções ao outros.
Edgar respirou aliviado; estava salvo, por enquanto. Precisava agora arranjar um local para passar a noite com seus amiguinhos: bastava de sustos por hoje. Conversando com o cavalariço conseguiu permissão para pernoitar na estrebaria, após ter inventado uma história mirabolante para o homem. Conseguiu, também, a promessa de um bom café da manhã na cozinha do palácio, antes que todos acordassem.

5  Coisas que Você Nem Desconfia

Caiu deitado sobre o feno, exausto, com os braços abertos. A luz da lua penetrava através das frestas no telhado, banhando tudo de azul. Sentou-se para tirar as botas; Pavel, muito estouvado, pulou do bolso e, desequilibrado, escorregou pelo feno, indo para dentro da bota que Edgar jogara de lado. Começou a gritar. Furioso, lá dentro; a vozinha soando abafada. Edgar riu até chorar.
- Quem manda ser enxerido?
- Tira-me daqui… Isso fede!
Edgar virou a bota e ele caiu deitado no chão, palidozinho e trêmulo:
- Que bodum! Isso não é mais uma bota… É uma arma perigosa!
- Não é não. – defendeu-se o rapaz. – Isso é um aroma para narizinhos de fino trato.
- Bah! Desde quando urubu é da realeza?
Edgar ia retrucar, mas se calou ante um gesto de Mariel:
- Quietos os dois: parecem crianças.
- O nanico é ele.
- É um calhordão, o patife!
- Ethel se impressionou com você.
- Não suporto mais esse nome… Todos só falam nela! Favas para a bruxa!
- Eu não acho; não se incomodou muito.
- Engana-se. Ela tem olhos na mente: é um ente maligno que tudo vê e conta a ela. Daí vem o seu poder; assim ela domina e enfeitiça. Todos os seus sortilégios são uma ilusão que perdura porque ela mina a fé. Íbis é a terra dos que não crêem, solo fértil para o mal fazer sua morada.
Edgar cruzou as pernas e sentou-os um em cada joelho.
- Então esse é o segredo? Acreditar. Se todos acreditassem que ela é frágil, Ethel morreria?
- A fé é um caminho que você somente descobre percorrendo. As pessoas têm medo de pensar quando há fome, mortes e escuridão. Todos os dias, os soldados armados invadem os vilarejos e prendem os rebeldes. Ethel não os mata: os transforma em pedras e os atira no Lago Proibido, atrás das muralhas do palácio.
- Então, os cascalhos coloridos do lago são…?
- Pessoas que sonharam.
- Cada pessoa é da cor do sonho que possui. – murmurou Pavel.
- Preciso contar uma coisa a vocês…- murmurou Edgar hesitante. – Vocês têm que saber por que…
- Não venha nos contar o que já sabemos! – resmungou Pavel mal-humorado.
- Edgar. – Mariel derramava sobre ele um olhar apaixonado – ela estava apaixonada por ele – Nós sempre soubemos o que você veio fazer aqui. Já o esperávamos.
- Mas… Queriam me matar na floresta.
- Você se vestia como um deles. E não o conhecíamos: apenas sabíamos que chegaria.
- Então, como devo agir? Sinto-me perdido.
- Qualquer pessoa poderá te trair, mas o perigo é Ethel: suspeita de você. Tentará seduzi-lo; não beba nada das mãos dela.
- Ela te oferece um brinde numa taça de cristal. O licor é doce, mas absorve sua alma.
- Eu recusarei. – Edgar estremeceu.
- Se recusar, ela manda cortar sua cabeça.
- Como me safo?
- Problema seu.- Pavel deu de ombros.
- Por que ele é tão mal humorado assim?
- Desde que perdemos nossos poderes e fomos reduzidos a este tamanho ridículo… Até uma borboleta nos faz medo.
- Nosso alimento preferido é mel; mas se nos aproximarmos de uma colméia, seremos transformados em brincos para as orelhas da Rainha-mãe.
- Que exagero, Pavel.
- Eu trarei mel pra vocês.
- Bela porcaria.
- Mas… Mariel, você disse que… Oh, não, vocês não perderam seus poderes…
- Que calhordão! Antes podíamos voar; se eu pular daqui agora vou rachar o nariz no chão; podíamos desaparecer no ar, como a luz…
- Quem sabe se colocasse uma pilhazinha nova aí…
- Quê?! Ora, vá se catar.
Mariel chorava de rir:
- Ele tem razão. Edgar. Ethel nos privou de nossos dons.
- Não! Vocês esqueceram! Lembra que disse: Ethel mina a fé das pessoas. Vocês não são imunes! Não existe mágica se você não acredita nela. Toda vez que um pensamento ruim o dominar, que o pessimismo o rondar, bata palmas forte e cante: acredite em Deus. Tudo se resolverá. Meu pai me ensinou isso e eu acredito.
- Talvez tenha razão…
- Um dia vocês vão reaprender a voar. Eu queria muito que me ensinassem.
Pavel torceu o nariz:
- Vai pagar pelas aulas, né?
Edgar e Mariel riram. Até Pavel riu, pela primeira vez.
Antes de dormir, Edgar sacudiu Mariel com a ponta dos dedos e sussurrou baixinho, para não acordar Pavel:
- Que é? – a voz dela soou sonolenta.
- Vocês sempre souberam qual a minha missão aqui?
- Hã-hã.
- Como?
- Nós sabemos até das coisas que você nem desconfia.
Ele não entendeu e não conseguiu mais dormir.

6 No Lago Proibido

 Ajoelhou-se à beira do lago e apanhou alguns cascalhos coloridos. Eram realmente lindos. Como poderia imaginar que haviam sido, um dia, pessoas como ele? Em algum lugar ali poderia estar o filho da boa senhora, cuja roupa usava. Como diria a ela, que agora ele não passava de mais um cascalho colorido? Mergulhou as mãos na água cristalina e lavou o rosto. O céu estrelado estava refletido no lago.
Ouviu uma canção triste, entoada por uma voz maravilhosa. Não conseguia entender as palavras, mas a melodia era linda. Edgar contornou as pedras e o que viu deixou-o fascinado; sentada sobre um banco de areia estava uma garota loura, cabelos longos cheios de cachos, perfil delicado e lábios vermelhos destacando-se na pele alva. Tinha os cotovelos apoiados no joelho e olhava fixamente o céu enquanto cantava. Ele tropeçou e ela se assustou, pondo-se em pé num salto, arrancada de seu sonho.
- Quem é você?
- E-Edgar. – se levantou desajeitado e fez uma mesura. – Desculpa se a assustei.
- Que faz aqui?
Os olhos dela eram tão azuis quanto os dele. Não sabia definir o que sentia naquele momento, estava todo confuso.
- Não conseguia dormir; então sai para caminhar.
- As noites são longas em Íbis; porque as sombras favorecem os maus. Você é um soldado?
- Não…!- gritou rápido, mas não concluiu sua defesa, pois se lembrou do conselho de Mariel.
- Não parece um soldado.
- O que faz aqui, sozinha? Ouvi lobos. É perigoso.
- Estou em companhia de meu pai.
Edgar olhou em redor. A menina sorriu:
- Ele está lá em cima. – apontou o céu. – Vê aquelas estrelas que parecem estilhaços de cristal? É ele.
- Ele morreu…
- Nós fomos condenados porque afrontamos o rei.
- Nós…? Como é seu nome?
- Miriam.
- Que falta tão cruel cometeram para serem castigados?
Ela encolheu os ombros:
- Se eu tivesse explicações…Entretanto… Palavras não mudam o que está feito.- ela abaixou a cabeça e galgou as pedras, com extrema agilidade.
- Não vá!- gritou angustiado; não queria que ela partisse.
- Daqui a pouco a cidade despertará. Deve tentar dormir, estranho.
- Poderei te ver novamente?
- Não.
- Por que?
- Nossos caminhos são diferentes.
- Não acredito, senão, por que razão eu te encontraria? E Deus sabe que nunca conseguiria esquece-la.
- Acha que basta um instante para definir a eternidade?
- É o suficiente para saber o que queremos.
- Não te lembrarás amanhã.
- Eu te amaria para sempre, se deixasse.
- Por que?
- É tão linda!
- Quem ama as aparências não aprendeu a amar.
- Ensina-me.
- Você se deixa seduzir facilmente. A pressa é o atalho da dor e eu sou sua armadilha.
Ela correu para o bosque e desapareceu.

7  As Mentiras de Cada Um
O dia, com claridade nebulosa, encontrou Edgar sentado, totalmente desperto, tendo a beleza cândida de Miriam sobre o coração.
“Um instante não basta para definir a eternidade” A voz dela parecia um eco.
“Mas é o suficiente pra gravar uma lembrança a ferro e fogo.”
- Desde que a Condessa tomou o palácio, o sol não brilha em Ibis. As noites são longas e os dias nebulosos; a escuridão desespera e entristece.
Edgar se assustara em princípio, mas acalmara-se ao reconhecer a voz de Mariel, que veio sentar-se junto dele. Ela o fitava de uma forma estranha; ele se envergonhou e teve medo que ela descobrisse sobre Miriam. Mas sabia também que, no momento em que tivera medo, Mariel soubera de tudo.
- Eu sempre gostei de dias nebulosos, daí espero a chuva.
- Mas você sempre soube que a chuva é passageira; depois vem o sol. O povo de Íbis sabe que não há chuva, sabe que o sol não voltará a nascer enquanto não houver liberdade.
- Mariel…
- Você sonhou!- disse antecipando-se a ele, bruscamente. Envergonhou-se de sua atitude e entristeceu.
- Não! Eu não dormi. Você sabe quem é a menina no lago, não sabe?
- Não sei do que fala.
- Oh, Mariel…. Miriam.
- Tudo não passou de um sonho, uma ilusão!
- Não dormi!
- Há muitas maneiras de sonhar.
- Ma…
- Já deveria estar no palácio. O cavalariço virá daqui a pouco para leva-lo à cozinha. Tem fome, não?
Somente agora se deu conta que sim.
- Por que não quer me ajudar, Mariel?
- Estou aqui para ajuda-lo.- gritou magoada.
- Diga-me como encontrar Miriam.
- Você é um tolo.- ela se virou para esconder dele a lágrima.- Se ela não te esqueceu, a encontrará.
A porta se abriu lá embaixo. Era o cavalariço, que chegara assobiando.
- Ei, garoto!
Edgar desceu para falar com ele. Pavel, que se mantivera afastado até então, se aproximou de Mariel.
- Por que fez isso?
- Do que está falando, Pavel?
- Você sabia quem era a menina. Você…
- Não pronuncie essa palavra! Nós não podemos mentir; seria a nossa perdição.
- Eu sei. Mariel, não tente enganar o seu destino.
- Eu não menti. Oh, as vezes compreender tudo, saber tudo, é muito cruel.

8  O Desafio das Armas
Pavel enlouqueceu quando viu a fartura de mel e geléia sobre a mesa e empanturrou-se de tal forma que ficou com a barriguinha roliça, pesadão. Mariel comeu pouco, mas divertiu-se a valer escorregando pelas peças de porcelana. Edgar os olhava fascinado: dava até vontade de ser pequenino.
- Deve ir agora, garoto.- disse a cozinheira. – Antes que o vejam: você não parece um soldado.
- Diga-me uma coisa: onde está o Rei Dimas?
- Você não é um soldado. – disse ela assustada. – Se fosse, não faria perguntas. Ande, chispa daqui.
- Obrigado pelo café.
- Tenha cuidado.
Ele sorriu e saiu. Dirigiu-se à sala de armas. O palácio tinha muitos corredores e todas as paredes eram de mármore; um deslumbramento só. Edgar parava para admirar cada móvel, cada entalhe; perdeu até a noção do tempo.
- Ah, você está aí?!
Era o Capitão da guarda.
- Sim senhor…
- Venha logo, deixa de lerdeza.
Entraram na sala de armas. Edgar ficou boquiaberto: nunca vira tantas espadas, elmos e escudos juntos.
- Você deve lustrar todas as peças.
- Todas?
- Elas devem brilhar como novas. A Condessa exige, senão…
Edgar achou melhor não incentiva-lo a explicar aquele “senão”.
- Quantos anos tenho para limpar isso?
- Quê?
O rapaz engasgou:
- Começarei imediatamente, senhor.
O Capitão lançou um olhar de desdém:
- A Condessa lhe dá duas horas. Nem um minuto a mais. Duas horas, meu rapaz. A partir de agora.- ele virou uma ampulheta sobre a lareira, com um sorriso de mofa nos lábios.- Não perca tempo.
- Duas horas!- gritou horrorizado. – É pouco tempo! Não conseguirei.
- Ninguém discute uma ordem da Condessa. Quem não cumpre, morre.
- Espere! Eu não vou conseguir. Preciso falar com a Condessa.
- Ela virá, quando seu tempo acabar.
Ele saiu. Edgar deu uma olhadinha nas espadas; estavam enferrujadas pra caramba. Sentou-se numa poltrona, desanimado.
- E essa agora? Onde fui me meter?
Mariel saltou do bolso para a mesa:
- Meu amigo. Você tem serviço pra mais de década.
- Não brinque, Mariel. Onde está Pavel?
- Julguei que estava no seu quepe.
Eles se entreolharam e exclamaram juntos:
- Que calhordão!
- Ele se perdeu, aliás, eu também estou perdido.
- Deve estar se fartando de geléia até agora, o patife. Mas não se preocupe com ele: sabe se virar. Quem corre perigo é você. Ela desconfia e armou uma cilada, antes que pudesse ameaça-la de alguma forma.
- Se estou encurralado, o que acontecerá?
- Se as espadas não estiverem limpas, ela terá motivos para condena-lo a morte.
- Eu posso fugir.
- Caso se aproxime daquela porta, ela se trancará.
- Não creio.
- Experimente.
Edgar achou melhor não duvidar:
- Eu tenho apenas um balde com água para limpar um milhão de espadas enferrujadas… Mariel, só você pode me salvar.
- Oh, não diga isso!
- Eu jamais conseguirei! Mas confio em você. Se você acreditar, reaprenderá a usar seus poderes.
- Eu tenho fé…
- Creio em você, Mariel, não me deixe morrer.
- Eu morreria por você! Eu acredito, acredito!- o coraçãozinho dela parecia querer explodir dentro do peito: tinha os olhos cerrados e as mãos crispadas.- Que se façam brilhantes como o cristal! Que bailem e retinem feito música.- o corpinho da fada foi elevado ao ar envolto numa nuvem de estrelas que se espalharam por toda a sala; as espadas, elmos, armaduras e escudos, como se adquirissem vida, flutuavam e retiniam: era música. Edgar rodava e pulava, fascinado. – Eu acredito! A fé é a luz da vida!
- Você é a luz, Mariel.- murmurou Edgar emocionado.

9  Vilanias de Pavel

Lapt!
Pavel despertou no susto.
Lapt.
Aquele barulho estranho veio novamente, antes que tivesse tempo de pensar; por puro instinto, correu e escondeu-se atrás de uma xícara. Lapt. “Mas que raios está acontecendo?” Deu-se conta, então, que se esquecera do mundo, empanturrando-se de mel e geléia e acabou dormindo ali, perdendo-se dos outros. E o pior: agora o caçavam como a uma raposa, ou melhor, um mosquito, com um mata-moscas.
- Aquele bichinho esquisito sumiu.- disse uma das cozinheiras, a mais magrinha, enquanto verificava cada centímetro da mesa.
Pavel sentiu o sangue subir para a cabeça.Ser chamado de bichinho era humilhação demais.
- Deve estar em algum lugar. Vi bem, está com a asinha quebrada.- disse a cozinheira gordinha.
“Com a asinha quebrada está seu nariz, cretina”
O esconderijo de Pavel foi descoberto. A magrinha gritou vitoriosa:
- Está aqui, aqui!
Lapt! Pavel correu o mais que pode, mas tropeçou e caiu. “É o meu fim!” Fechou um olho, mas deixou o outro bem aberto, para ver o que acontecia. A gorda aproximou bem o rosto dele, para examina-lo, crente que ele estava morto:
- Nossa, eu nunca vi uma lesma tão feia!
Era demais!
- LESMA É A SUA MÃE, SUA FAROFEIRA ESTÚPIDA, IGNORANTE E REMELENTA! NÃO ENXERGA, NÃO?
A mulher empalideceu e recuou:
- Meu Deus, ele fala! – e caiu nos braços da magrinha que, não podendo cm o peso, foi ao chão, tendo sobre si a pesada amiga.- Maaaaaaata.
- Ai, ai; socorro, ela está me amassando!
Pavel se levantou irritado:
- Como cacarejam! Queria que fossem galinhas!
E, de repente, plim. Lá estavam duas galinhas atônitas no chão da cozinha. Pavel piscou e engoliu em seco:
- E-eu consegui? – experimentou voar. Podia voar! Isso significava que Mariel também conseguira. Voou diante das galinhas fazendo fita; elas cacarejaram assustadas. – Suas linguarudas, nunca desafiem o grande Pavel!- mostrou um palmo de língua pra elas e ia-se embora, mas ficou com dó a magrinha e desfez o encanto. A moça levantou-se assustada e correu, gritando socorro. Olhou a gordinha e, essa, decidiu deixar mais um pouquinho no castigo. Mas como a galinha o olhava como quem olha um banquete, resolveu não arriscar muito e deu o fora.

10  A Cilada
A areia da ampulheta escoara toda; o tempo esgotado, a porta se abriu de par em par e surgiu Ethel. Edgar pôs-se de pé num movimento rápido e fez uma reverência. A luz, a figura de Ethel era ainda mais impressionante: não sabia como definir sua elegância e beleza fria.
- Muito bem. – seu olhar esquadrinhou toda a sala. Pegou uma espada e ergueu-a conta a luz: o aço reluzia como uma pedra preciosa.- É inacreditável!
- Fiz o melhor de mim, Condessa….- murmurou, sem fita-la.
Ethel começou a rir, a gargalhar; um riso terrível, que fez o rapaz gelar.
“Oh, meu Deus!”, gemeu Mariel do seu esconderijo: compreendia tudo agora.
- Quem é você, estrangeiro?- Ethel fulminou-o com um olhar demoníaco. Edgar recuou, mas a mulher pareceu crescer diante dele, como se pudesse tomar todos os espaços existentes: sentia-se um anão.
Mariel compreendeu que condenara Edgar. Chorou em silêncio: não poderia ajuda-lo agora.
- Sou um simples súdito, majestade. Um soldado que cumpriu suas ordens. Pelo menos, tentei. Posso limpa-las novamente, se assim o desejar.
- NÃO SEJA ESTÚPIDO! Ninguém conseguiria limpar essas espadas no tempo que determinei.- ela pressionou a espada que segurava contra o peito do rapaz, prendendo-o contra a parede.- A não ser uma pessoa especial. Um ser encantado. Você é um feiticeiro?
- Oh, não! – ele tentou sorrir.- Sou um soldado que morreria por sua majestade.
- Mostre-me o seu poder.- ela parecia querer penetra-lo com o olhar.- Ou terá a chance de morrer por mim.
Edgar fechou os olhos para fugir do malefício.
- Guardas! – berrou de tal forma que sua voz seria ouvida em todo castelo.
Logo as portas voltaram a se abrir e surgiu o Capitão seguido de outros dois soldados.
- Prendam-no. Algemem-no. Enforquem-no ao anoitecer e tragam-me a sua cabeça. Que o povo tenha circo essa noite!
Os soldados algemaram o rapaz e arrastaram-no para fora da sala.
- Condessa…- suplicou o rapaz, mas não lhe deram tempo de falar.
O Capitão parecia impressionado:
- Puxa! …Condessa, como ele conseguiu?
Ela o olhou com tal desdém que o pobre corou. Ethel afastou-o com um safanão e saiu, louca de raiva.

11 A Sombra Sobr eo Coração

Sozinha na sala de armas, Mariel sentia que seu coração era uma ferida viva. Um ponto de luz cresceu a seu lado e Pavel apareceu:
- Mariel, nós conseguimos…- disse, feliz.- Somos nós mesmos novamente. Bem quase… Falta crescer de novo…
- Oh, Pavel… a minha soberba condenou Edgar.
- Como?
- Eu queria que ele me admirasse, que soubesse do que era capaz de fazer… Queria que ficasse atraído por mim, como ficou por Miriam…
- Não estou entendendo. Onde está o menino?
- Fui tão egoísta que não quis ver a cilada que Ethel preparou para ele.
- Ethel prendeu Ed… Oh, céus.
A lágrima de Mariel doía em Pavel.
- Que tola fui. Nenhuma pessoa normal cumpriria a tarefa de Ethel; apenas um ser encantado. Ela acha que ele é um feiticeiro.
- Menos mal, se soubesse a verdade…
- Pediu a cabeça dele; ao anoitecer vão mata-lo.
- Nada ainda está perdido, Mariel. Não se mortalize… Veja, graças a seu amor(porque não existe egoísmo em você, Mariel, existe amor) nós reaprendemos nossos dons. E isso não é inútil, senão, o que seríamos nós? Quem ama tem esperança, Mariel. É a esperança que vai consertar tudo o que parece errado.
- O que faremos?
- As pessoas têm que saber quem é Edgar. Que ele está aqui. Devemos procurar os rebeldes: eles enfrentarão os soldados de Ethel.
- Por que é tão tolo o ser que ama?
- Porque não sabe fingir. Vamos, não perca a esperança. 

*

A masmorra era um local escuro, úmido e frio. Edgar foi atirado ao chão de uma cela pequena e ouviu o som dos ferrolhos sendo trancados. Os prisioneiros das outras celas gritavam clamando por água. Era um cenário de horror e o moço teve vontade de chorar.
Edgar levantou-se e só então percebeu que não estava só. Encolhido no canto da parede, onde a escuridão era mais tênue, estava um velho magro, tiritando de frio. O rapaz tirou seu casaco e o cobriu. O homem ficou entre assustado e agradecido:
- Deus lhe pague.
Edgar sorriu tristemente:
- Que seja rápido, então, ou chegará tarde. Por que eles gritam tanto? – perguntou referindo-se aos outros prisioneiros.
- Desespero, fome, sede. Todos os dias chegam prisioneiros e gritam sem parar. Parecem não compreender que, uma vez aqui, é preciso ter paciência para não enlouquecer. Você é um soldado. O que fez para perder a boa vida?
- Limpei espadas.
- Devo estar ficando surdo: eu não entendi.
- Nem eu; e o senhor, meu tio? Por que o maltratam?
- Eu não me lembro. Nem mesmo sei meu nome. É como se alguém tivesse bebido meu cérebro.- o velho se calou e seus olhos vazios de expressão perderam-se na escuridão, como se tentasse atravessa-la.
Edgar sentiu-se dominado pelo desespero e agarrando-se às grades, gritou também, sacudindo-as.
- Somente precisa ter paciência, para não enlouquecer.
- Eles vão me matar ao anoitecer! Meu tempo é curto para ter paciência.- uma lágrima rolou pela face. – Miriam!- gritou.- Onde está você? – murmurou quase num sussurro.

12  A Redoma
Miriam abriu os olhos, assustada. Era a voz dele: do jovem que aparecera no seu sonho, na noite anterior. Poderia jurar que escutara o grito angustiado. Ele estava em apuros e chamando por ela. Tentou levantar-se, mas bateu a cabeça no teto.
“Oh, meu pai! Até quando suportarei isso!”
Estava presa numa redoma de vidro, uma pequena redoma que somente a possibilitava ficar sentada ou então curtos movimentos. Fora aprisionada em uma esfera não maior que uma bola de futebol e estava sobre uma base de prata, onde se enrodilhava uma serpente venenosa, que atacaria quem ousasse se aproximar, nos aposentos do Príncipe Ricardo.
Esse fora o castigo impingido por Ethel.
Acontecera o seguinte: o Príncipe Ricardo se apaixonou por Miriam, a filha do sábio Conselheiro da Rainha Heliodora. Pediu-a em casamento, mas foi desprezado por ela. Ricardo presenteou-a com uma capa cravejada de diamantes e, como ultimato, deu-lhe dois dias para que decidisse aceita-lo. Pois bem, findo o prazo, o Conselheiro vestiu uma hiena com a tal capa e mandou o animal ao encontro do Príncipe com o seguinte recado: “Se um lobo quer casar-se, que se case com uma hiena, então”.
A ira de Ethel fez desabar um temporal sobre Ibis:
- Insolentes! Veremos até onde vai a petulância desta estúpida! Se ela não se entrega à razão, seus nervos hão de traí-la.
E assim Miriam foi aprisionada na redoma. Desde então não viu mais o pai ou teve notícias dele. Acreditava que ele havia se transformado em estrela (ele sempre lhe dissera: um dia, quando não estiver mais a seu lado, era porque havia se transformado em estrelas, se quisesse vê-lo deveria olhar para o norte; os estilhaços de cristal no céu noturno seriam seus olhos velando por ela). Mas na verdade ele fora desmemoriado por Ethel e aprisionado nas masmorras. O sábio Conselheiro perdera a memória e a capacidade de ver o futuro; tinha os olhos vazios perdidos na escuridão. Ethel deixara cega a sua alma.
Miriam, entretanto, acreditava que ele era uma estrela; aprendera com ele a sonhar e fazer a mente viajar no sonho. Toda a noite imaginava estar no lago, olhando o céu, e, num repente, sentia-se mesmo lá. Fora assim que conhecera Edgar. Estava confusa agora, pois não sabia se era ele quem sempre soubera que ia chegar; queria reencontra-lo, mas apenas sabia que ele estava em perigo e que ela não poderia estar a seu lado.

13  Na taberna
Os rebeldes se reuniam nos fundos da taberna. Eram homens e mulheres simples do povo, camponeses, explorados pela nova política de impostos de Ricardo, que consumia o parco lucro do trabalho.
Naturalmente alegres e barulhentos, procuravam compensar as agruras da vida com otimismo e festa. Mas andavam tristes, os homens bebiam muito e as mulheres já não dançavam: o riso morrera e era fácil entender por quê. Não passava dia sem que os soldados invadissem as Vilas prendendo, matando, destruindo as plantações e moradas. Ethel era impiedosa ante qualquer demonstração de coragem, oprimia qualquer grito de liberdade.
Mariel e Pavel sentaram-se no vão de uma janela e analisaram o local.
- Eles não vão acreditar em nós. Estão desesperançados.
- Realmente: rirão de nosso tamanho e acharão que estão bêbados. Alguns verdadeiramente estão: bah, as pessoas são insuportáveis quando estão bêbadas! – Pavel coçou a cabeça.- Mas deve haver um jeito.
- Pavel…- Mariel cutucou-o de leve e apontou algo.
Todos bebiam e conversavam baixo; apenas um parecia dormir debruçado sobre a mesa, com uma garrafa de vinho vazia a sua frente. Era o Cavalariço do castelo.
- Você acha?- perguntou com os olhinhos brilhando.
- Hum-hum.
- Iahu!- Pavel inflou o peito e decolou a toda.- Vamos a ação.
Mariel não conseguiu deixar de rir apesar do nervosismo e o imitou. Zum. Pavel entrou num dos ouvidos do homem que dormia; este deu um pulo da cadeira batendo no rosto com a mão. Zum. Mariel entrou pelo outro ouvido. O homem voltou a pular, agora totalmente desperto. Meio tonto teve que se apoiar à cadeira para não cair. Sentia uma coceirinha esquisita nos ouvidos e a cabeça e os braços pareciam se contrair independentes da vontade dele. Parou um instante e tudo pareceu voltar ao normal, mas se surpreendeu ao ouvir-se falando:
- Ei, não podemos ficar aqui, comendo moscas. Temos uma coisa importante a fazer.
- Há sim, Tobias: jantarmos a leitoa da sua tia.
Todos riram.
- Engula a sua língua, calhordão.
- Uh, ca-lhor-dão! – houve um coro jocoso.
- Tobias está zangado.
- Muito zangado.
- Zangadão.
- Escuta, gente, é sério.- pelo tom apaziguador só podia ser Mariel falando.- Esta manhã Ethel prendeu um jovem estrangeiro…
- Esta manhã os soldados invadiram minha vila: prenderam meu pai e meus irmãos.
- E daí?O que podemos fazer?
- Tomar mais um cálice de vinho, por isso Ethel não nos castigará.
- Irão enforcar esse rapaz ao anoitecer.
- Eis o circo que o Reino nos propicia. Ora, não queremos mais ver sangue!
- Por isso devemos impedir a morte desse rapaz.
- E por que nos arriscaríamos por um estrangeiro?
- Se tentarmos liberta-lo haverá mais de um enforcamento esta noite.
- Sabe lá Deus quantos de nós iremos com ele.
- E a quem interessa a sorte de um estrangeiro, se a nossa própria é incerta?
- Ele não é um simples desconhecido. É um de vocês, mais que isso, ele vem libertar a todos.
- Quem é esse cara, afinal? O rei-da-cocada-preta? Poderá vencer Ethel e o seu fantoche?
- Se vocês acreditarem nele sim. Se tiverem, fé, tudo será possível. Nenhuma arma, nenhuma batalha, nenhum veneno poderá derrotar Ethel; apenas a fé a destruirá. Esse é o segredo: a fé.
- Muito bem, veremos o que podemos fazer por esse rapaz.
- Tem que ser rápido.
- Como se chama ele?
- Edgar.
- Edgar. Estou curioso para conhece-lo. Afinal, será divertido desafiar Ethel.
- Divertido e perigoso.
- Vocês estão loucos?
- Ele tem razão. Estou cansado de me submeter à maldade da bruxa.
- Se houvesse neblina, teríamos mais segurança para agir: eles não poderiam nos identificar.
- É. Eles podem ser mais fortes, mas nós somos mais espertos.
- Haverá neblina.
- Que isso, Tobias! O ar está muito seco hoje.
- Haverá neblina esta noite, eu sei.
- Hum, você está esquisito, Tobias.
- Não nos dirá mais nada sobre esse cara? Você sabe de mais…
- Ele mesmo contará sua história a vocês.
- Legal, legal. Ethel quer circo esta noite: ela terá.
Na saída, Pavel não se conteve e aprontou: transformou o engraçadinho que falara mal da sua velha e boa tia em um burro.

14 Os Condenados
- Que horas serão? – Edgar sentou-se ao lado do velho, exausto, angustiado.- Quanto faltará para o anoitecer?
- As noites em Íbis são eternas: os dias não têm sol e o anoitecer não tem luar.
- Mas tem estrelas! Por que Ethel não conseguiu apagar as estrelas?
- Porque sempre haverá esperança no coração de alguém. Quando a última estrela se apagar é sinal de que se acabou o futuro. Toda vez que admirar uma estrela, alegre-se; a vida existe e verá, então, nascer mais uma.
Eles ficaram em silêncio. Miriam procurava o pai nas estrelas, lembrou. Os prisioneiros voltaram a se agitar nas celas; mas era uma agitação diferente, sem palavrões chulos: era uma acolhida benigna. Edgar esticou os olhos além das barras de ferro e compreendeu: eram as escravas que traziam água e pão aos condenados.
- Senhora…
Estendeu a mão quando uma delas passou em frente à sua cela. A mulher parou, hesitante. O soldado que vinha logo atrás a empurrou com violência:
- Esses não! Esses porcos ultrajaram Ethel.
- Mas…- balbuciou a mulher.
O soldado puxou a espada sobre a cabeça dela, que se intimidou e recomeçou a andar. O rapaz ficou revoltado e gritou:
- ASSASSINOS! Cães do demônio…! Não podem fazer isso conosco!
- Quer água, garotinho?!- perguntou o soldado com sarcasmo.- Terá água. – e arrancando o pote das mãos da mulher, atirou aa água contra Edgar, o encharcando.- Beba a sua água.
O velho arrastou-se rápido, como um faminto, e beijou a poça d’água que ficara no chão: bebeu com sofreguidão.
- Eles são maus!- Edgar caiu de joelhos, chorando de raiva. – Há quanto tempo, meu tio?
- Eu não me lembro mais. Não sei por que estou aqui. Falam de Ethel, mas não sei quem é. Há tanto tempo que nem me lembro mais…Obrigado pela água…Fazia tempo…
- Como suporta isso! É cruel.
- Eu tenho fé.
15

O Príncipe Ricardo sentou-se numa cadeira diante da redoma onde Miriam era prisioneira. Debruçou-se sobre a mesa e apoiou o queixo com as mãos. Ficou a observar a menina, imóvel, como que hipnotizado.Teria a mesma idade que Edgar: os olhos muito pretos e cabelos cinzentos.
- Cada dia que passa te amo mais, Miriam.- murmurou.
A menina moveu-se na redoma e fulminou-o com um olhar de asco:
- Os traidores não amam. Você é apenas uma das marionetes de Ethel. A mais monstruosa delas.
A serpente deslizara mansamente sobre a mesa e se enrodilhou no pescoço do príncipe.
- Sua insolência somente a faz sofrer, Miriam. Como se fosse frutífera! Não vê que somente aumenta a dor de seu pai.
- Onde está ele?
- O Conselheiro é um traidor. Está aonde um traidor merece ficar.
- Você é horroroso! Meu pai é uma estrela; sua maldade não pode destruí-lo.
Ricardo riu alto. Miriam corou percebendo o quanto fora tola. A serpente voltou a se aninhar sob a redoma.
- Você é tão boba. Acredita mesmo nessa fábula que seu pai inventou para que perdesse o medo da noite? Seu pai é homem e sente dor, como todos os outros homens.
- Vá embora! – gritou a menina soluçando.
- Até quando vai resistir, Miriam?
- Até sempre! Até meu ódio por você se acabar; mas ele aumenta mais e mais, então morrerei antes dele. Eu odeio você, Ricardo.
Ricardo afastou-se magoado. Realmente era dependente de Ethel, mas não se considerava um traidor. Não, talvez o seu único pecado fosse ser fiel. Ethel dizia sempre que as verdades eram mentiras tão complicadas que ninguém acreditava nelas. Talvez tivesse razão. Entrou no suntuoso quarto da Condessa. Ela estava sentada na cama de madrepérola, recolhida a uma silenciosa meditação. O negro de sua vestimenta contrastando com o alvor dos lençóis.
- Mamãe…
Ela abriu os olhos e sorriu docemente para ele. Fez sinal para que se aproximasse. Ricardo deitou-se sobre a cama, aninhando a cabeça no colo macio.
- Oh, por que você é tão frágil, tão assustadiço? – murmurou com docilidade.- Tudo te magoa, tudo te fere. Como poderei ensina-lo a ser forte?- ela contemplou a noite que já caíra por completo além das janelas, com uma tristeza indescritível no olhar.
Ricardo gemeu de dor e cerrou os olhos com força; Ethel beijou-lhe a testa suada. Os nervos do rapaz foram-se atrofiando, fazendo-o se contorcer dolorosamente; a ossatura foi-se modificando na forma, a pele alva começou a se encher de pelos cinzentos, o rosto bonito se deformou afunilando-se num focinho: ele se tornou um lobo, que uivou tristemente. Ethel abraçou-o com ternura redobrada e escovou os pelos cinzentos e macios.
- Meu filhinho querido. Não vou deixar que te magoem mais.
Levantou-se e conduziu o lobo até uma jaula de ouro. Ela podia conhecer toda a magia, todos os sortilégios, mas jamais conseguiria livra-lo de seu destino: assim fora e seria todas as noites de sua vida. 

16 A Execução

- Anoiteceu. – Edgar fechou os olhos numa oração e encostou o rosto na parede fria.- Oh, pai, todos me abandonaram.- ouviu um leve ruído no corredor e estremeceu. Virou-se imediatamente e sentiu um alívio súbito ao distinguir somente um vulto na escuridão. Aproximou-se devagar: era uma mulher, uma das escravas de rosto coberto. Sentiu-se dominado por uma comoção inexplicada.
- É você o prisioneiro que irão executar essa noite.- a voz era docemente triste.- É tão jovem!
- Que horas são?
- Quase sete.
- E a que horas vão me levar?
- A qualquer momento.Oh, não pense nisso! Não. Trouxe alimento: pra você e seu amigo… Pegue rápido; eles não podem me ver aqui…
Edgar se esforçava, mas não conseguia ver seu rosto detrás do véu preto. Quando ela enfiou a mão por entre as grades, para entregar-lhe o alimento, ele segurou forte o seu pulso e beijou as mãos.
- Que Deus abençoe tão bondoso coração. Preciso de um último favor.
- Todos, minha criança…- disse num soluço.
- Eu vim de longe, somente para encontrar uma pessoa…
- De onde vieste?
- Tebar.
- Tebar!… É muito longe…
- Não terei mais tempo… Mas foi uma promessa feita a meu pai… Não poderia morrer sem cumprir o desejo de meu pai. Poderia a senhora me ajudar?
- Se eu não for inútil…
- Oh, não! Precisa encontrar a Rainha Heliodora.
A mulher recuou instintivamente. Quando voltou a falar, sua voz tinha uma entonação estranha:
- A Rainha Heliodora é hoje uma escrava de Ethel.
- Eu sei. Mas será sempre uma rainha, mesmo que lhe incumbam somente do serviço sujo. Um coração não se degenera; me disseram que ela é um anjo.
- Quem é você?
- Meu nome é Edgar, filho de Isaías, o carpinteiro. Não nasci em Tebar, mas me criei lá. Desde pequeno sabia que, ao fazer quinze anos, deveria fazer uma longa viagem: viria para Íbis e me encontraria com a Rainha Heliodora. A senhora não imagina o quanto sonhei com isso, quantas fábulas imaginei. Quantos rostos desenhei na areia pensando na rainha. Pensei muitas coisas, mas jamais imaginei que morreria sem conhece-la… Meu pai me disse: ao estar diante da rainha, entregue-lhe este presente. Este. – ele tirou uma caixinha de veludo preto do bolso do gibão e passou-a à mulher, que pegou com as mãos trêmulas.- Diga-lhe uma frase, eu nunca entendi essa frase, e mostre-lhe seu coração.
A mulher chorava silenciosamente:
- Qual frase que você nunca entendeu?
Os soldados começaram a descer os degraus da masmorra. As espadas retiniam contra as pedras. Eles falavam alto, alegremente.
- Nenhuma lágrima será em vão.
A mulher gritou de dor e recuou, apertando a caixa preta contra o seio, até ser detida pela parede oposta:
- Mostra-me…
- Eles estão vindo! Eu não quero morrer! – o rapaz chorava.
- Você não vai morrer… Nenhuma lágrima será em vão. Entende agora?
- Não!
- Mostra-me seu coração!
Edgar desabotoou a camisa e desnudou o peito alvo onde, no lado esquerdo, havia uma marca de nascença negro azulada com um formato que lembrava a asa quebrada de um pássaro.
- Meu filho! – a mulher caiu ajoelhada junto da grade tentando toca-lo, mas não conseguiu, pois ele recuara assustado.
Os soldados haviam chegado e puxaram a mulher com brutalidade da frente da porta, atirando-a no chão. Entraram na cela e algemaram Edgar, que se debatia enlouquecido. A mulher tentou agarrar-se à perna de um soldado e foi chutada por ele.
- Não o levem!- berrou desesperada.- Não o levem, pelo amor de Deus! – ela tentou abraçar-se a Edgar, mas novamente foi puxada por um soldado e, nesse momento, seu véu se desprendeu e as luzes dos archotes iluminaram o rosto mais lindo que Edgar já vira: os cabelos mais suaves, de um castanho mel quase líquido; os enormes olhos azuis banhados em lágrimas e desespero. – Eu sou Heliodora…
Edgar fitou-a maravilhado, mas nada pode dizer; os soldados o forçaram a caminhar.
- Eu sou Heliodora! – gritou a Rainha, em prantos.

17 A Execuçãio 2 

A praça estava lotada; os populares estavam agitados e falavam muito, irrequietos, pareciam uns formigueiros em plena atividade. A forca estava toda iluminada por archotes, para que ninguém deixasse de ver a execução. De repente, a praça toda silenciou.
A Condessa Ethel surgira na sacada do castelo, acompanhada do Rei Dimas: um homem alto, magro de porte elegante. Foram saudados com um respeito raivoso. Ethel ergueu um braço e fez um aceno largo, abrangendo toda a praça.
- Lá vêm eles. – disse alguém e, no mesmo instante todas as atenções estavam voltadas para os portões inferiores do palácio.
Foi aí que Pavel, que estava escondido em algum ponto da praça, voou alto, subiu o mais alto que pôde e, enchendo os pulmões de ar, começou a soprar forte; as bochechinhas crescendo tanto que chegavam a esconde-lo. Começou a fazer frio, muito frio, as pessoas tremiam e não entendiam o porquê dessa mudança repentina; a noite prometia ser quente. Uma fina neblina começou a se formar e foi aumentando, aumentando, até esconder tudo e já não se podia enxergar três metros adiante do nariz.
Os soldados entraram na praça, maldizendo a neblina. Os que conduziam o prisioneiro seguiam mais atrás, tendo atrás de si mais quatro companheiros. Estes foram sendo atingidos um a um por golpes de porrete na nuca, vindos não-se-sabe-onde, e caiam sem sentido. A mesma sorte teve até o próprio Edgar; e o cortejo continuava rasgando a densa neblina.
- Ei! Levem o garoto para nós. –disse um dos condutores para os que estavam à frente.- Precisamos ir ao banheiro.
- Vocês são mesmo uns cocos, hein?- resmungou o interpelado.
O prisioneiro foi transferido de mãos.
- Esta dormindo, a droga desse moleque!
- Deve ter desmaiado de medo, o pobre coitado.
- Raios de neblina do inferno.- gritou, depois de topado numa pedra.
Houve um principio de briga entre os populares e logo a praça era um tumulto só. Entre aplausos, vaias, socos, xingamentos e muita confusão, o prisioneiro foi executado. O corpo ficou balançando no patíbulo, feito o pêndulo de um relógio. A confusão da praça só anaimou com a intervenção dos soldados, mesmo assim, aproveitando–se da pouca visibilidade, os populares se vingaram e encheram a guarda real de sopapos.
- Corja!- rugiu furiosa Ethel, recolhendo-se ao interior do palácio, seguida de um mecânico e impassível Rei Dimas.
A Rainha Heliodora, recuperando-se do choque inicial, encheu-se de coragem furiosa e fugiu do castelo, mergulhando na confusão que dominava a praça. Quando se viu diante do patíbulo, o prisioneiro já balouçava ao vento, pendurado pela corda; o som de seus sapatos batendo na madeira parecia ser mais alto que a gritaria geral. A mulher apertou a caixinha preta contra o peito sentindo que era atravessada pela dor, como se realmente tivesse sido ferida de espada.
Assim, viu-se envolvida num turbilhão de pequenas estrelas e Mariel surgiu à sua frente.
- Vem comigo.
- Você não entende?- em sua dor, Heliodora parecia alheia a tudo.- É meu filho, ali. Eles mataram meu filho.
- Siga a luz.
Heliodora caminhou, seguindo sempre o ponto de luz, que a hipnotizava. Chegou a um descampado e lá estava um airoso cavalo branco atado a uma charrete.
- Suba, rápido. – disse Mariel.
- Para onde vamos? Eu preciso voltar… Tenho que fazer meu filho dormir… Ele parece estar tão cansado…
Heliodora deitou-se na charrete e adormeceu. Mariel tomou as rédeas e partiram, desaparecendo na escuridão.

18 Ônus da Vingança 

Depois de todo aquele esforço para produzir a neblina, Pavel sentiu-se tomado por uma fome danada e a única coisa que brincava diante de seus olhos, quase o enlouquecendo de gula, era a deliciosa geléia da cozinha real. E foi pra lá que ele debandou, se esquecendo até de conferir se o plano dera certo. É que a danada da geléia…
Era realmente saborosa! Pavel mergulhou de corpo e alma no pote dentro do armário. Mas, de repente, tudo pareceu ser sacudido por um terremoto e o vidro (nessas alturas Pavel acabava de limpar o vidro de geléia com um pedaço de pão e se encontrava numa posição estranha, com a metade do corpo dentro do vidro, pois não queria perder um só tiquinho da preciosidade) caiu do armário (com Pavel dentro, esclareça-se). Ainda atordoado, em meio aos cacos, Pavel se levantava quando foi atropelado desta vez por um tropel de cavalos. Cavalos? Na cozinha real? Nada disso: era um bando de empregados que perseguiam alguma coisa com uma afoiteza!
- Nossa! Nunca vi uma tão gorda!
- É muito gorda.
- Tem um coxão…
Santo Deus! Pavel caiu em si: só podia ser a galinha da cozinheira. Bem, a cozinheira que virara galinha. Não! A cozinheira encantada. Esquecera-se de desfazer o encanto e, agora, a pobre era perseguida sem dó nem piedade. Foi encontra-la num cantinho escuro da despensa, ofegante, cacarejando baixinho. Sabe como desfazer um encanto? É simples: basta desejar que ele não exista mais.
Vozes.
- Caramba, como corre aquela danada.
- Com aquela pança toda, hein…
- Ah, se eu pego aquela galinha gorda!
A cozinheira injuriou-se toda. “Isso é comigo?” Nem esperou resposta, passou a mão numa vassoura e pôs todo mundo para correr.
Amanhecia lentamente e lamentos de dor começaram a ser ouvidos por todo o palácio. Não eram gritos de desespero, eram apenas resignação, de alguém que sofria sem se revoltar. Pavel ficou arrepiado. A cozinheira parou e ficou estática, olhando o teto, com a vassoura na mão.
- Oh, meu Deus, até quando?…- murmurou ela.
Pavel foi averiguar, mordido de curiosidade. O som vinha lá de cima. Entrou nos aposentos do príncipe e encontrou Miriam em sua eterna prisão.
- É você quem chora, Miriam?
- Tenho chorado muito, amigo-que-voa.- disse, admirando o pequeno ser. – Mas a minha dor é pequena, comparada à dessa pobre criatura que se lamenta todo o amanhecer.
- Você não devia chorar…
- Falar é fácil, quando se é livre…Mas, o que é liberdade, afinal? Até o ser que ama é prisioneiro de alguém!… Por isso, as vezes, ele chora.
- Você é muito amada. Alegre-se: todo suplício tem um fim e o teu não é maior que o amor que a rodeia.
- Quem é você, que me acalma e fascina?
- Não é importante. Saber demais é muito chato, Miriam.
- Tem razão.
- Seja curiosa, mas tenha bom senso; não há sabedoria sem ele e todo conhecimento acaba valendo muito pouco.
Miriam ficou em silêncio. Um novo gemido fê-los arrepiar.
- Por que sofre tanto essa pessoa?
- Talvez para dar-lhe conforto, em sua prisão. – Pavel tornou-se um ponto de luz, ante o olhar maravilhado da menina.
Pavel abriu os olhos e estava no quarto da Condessa. O que viu deixou-o perplexo. Nenhuma luz havia no quarto exceto a claridade nebulosa do dia vindouro. Aproximou-se da jaula de ouro e presenciou a lenta e dolorosa metamorfose do lobo em ser humano, banhado pela luz difusa. Era ele quem produzia tão tristes sons em sua dor. O cortinado do banheiro estava aberto e a própria Ethel, sentada à borda da banheira, preparava um banho com sais aromáticos, em gestos lentos; o semblante refletindo uma paz que jamais suspeitaria existir nela.
Ela levantou-se e abriu a jaula. Tomou o corpo nu do garoto, quase inconsciente, nos braços e levou-o para a banheira. Ele devia ser pesado, porém ela não esboçou nenhum sinal de fadiga. Banhou-o demoradamente, num silêncio amoroso, dedicado. “Somente uma mãe possui tanta ternura”, pensou Pavel. Ricardo parecia dormir serenamente. Ethel tirou-o da água e o secou; penteou-lhe o cabelo e, envolvendo-o num lençol, levou-o à cama. “Que mulher impressionante!” Ela beijou-o na testa e o cobriu. “A maternidade tem o poder de mudar a vida das pessoas…” Na saída, Ethel atirou a toalha úmida sobre uma poltrona, ou melhor, na poltrona em que estava Pavel, que ficou preso sob o tecido molhado como um peixe na rede. “Mas essa aí é a mesma bruxa cretina de sempre!” Arrematou furioso. “Ah, se é.”

19 A Caverna 
Mariel conduziu a charrete, onde a rainha ainda estava adormecida, até um casebre, aparentemente abandonado, no sopé da montanha. Ela fez soar a sineta da porta e desapareceu. Saiu, então, uma senhora corcunda que, ao ver a charrete abandonada, recolheu-se rápida. Ao voltar estava acompanhada de dois homens que estavam discretamente armados de espadas; aproximaram-se com cautela.
- Há uma mulher aqui.- sussurrou um deles. – Está adormecida.
- Deve estar perdida.
A mulher, que se aproximara também, notou os pés nus e as correntes atadas ao tornozelo.
- É uma escrava fugida. – disse com voz rouca.
- Como chegou até aqui?- o homem afastou o véu de sobre o rosto com delicadeza.
- É linda.
- Meu Deus.- a mulher empalideceu.- Reconheço este rosto. Levem-na para dentro.
Os homens hesitaram.
- Carreguem-na como a um cristal. É a nossa majestade… a Rainha Heliodora.
O casebre era pobremente mobiliado, com apenas dois cômodos. Entretanto, afastando-se um armário da parede, abria-se uma passagem escura que dava para uma caverna. Era ali que os revoltosos se escondiam e faziam reuniões importantes contra o reinado de Ethel. Poucos sabiam da existência da caverna e lá assim havia liberdade, música e alegria; coisas que os soldados do reino reprimiam com violência.
Como não havia nenhuma cama por ali, deitaram a rainha numa larga pedra plana que usavam como mesa. Os rebeldes começaram a se aproximar um a um, num silêncio respeitoso, num cicio medroso, para admirar a amada rainha e se retiravam sem fazer barulho .

20  Da Terra e dos Fortes 
- De onde vem a força para lutar, quando muitos morrem?
Edgar sentou-se diante do Chefe dos rebeldes, um homem alto, forte, rosto maltratado pelo trabalho rural, barba cerrada, mas cuja bondade sobressaía ao aspecto rude.
- O homem que trabalha no campo sabe que o bem ou o mal é tudo o que pode advir da terra e dos fortes. Se não for cultivado, o trigo fenecerá; a terra ficará árida, se não for fecundada. É tudo um ciclo, se reparar bem verá que tudo se repete sempre. Tem sido sempre assim: haverá sempre um explorador que tentará subestimar o esforço do trabalhador; cabe a cada um a escolha de submeter-se ou não ao jugo. Muitas vezes não há escolha: ora a gente luta, hora desistimos, insistimos, ganhamos, perdemos. Por isso continuamos aqui, vivos. A alma de um homem não morre com seu corpo; ela vai ao encontro de Deus, voltar a ser mais uma parte, uma pequena fração do Cosmos.
- O que é o Cosmos?
- É aquilo que ninguém conhece ou conhecerá na sua totalidade (somos fração, lembra?), que jamais será definido. No entanto ele existe, é maior que o seu pensamento, É o mistério de Deus.
- Quando eu morrer, vou pedir uma viagem de férias pelo Cosmos para Deus. Se você estiver lá, irá comigo.
O Chefe sorriu:
- A força pra lutar vem daí; nada existe em vão. Lute pelo que você acreditar: assim terá explicação para tudo. Se hoje eu plantar em frente à minha casa uma figueira e, vindo os soldados de Ethel, a destruírem, amanhã, quando voltarem encontrarão uma nova figueira no mesmo lugar. É porque acredito que ali é o lugar dela. Ora, em breve meus filhos irão brincar à sua sombra enquanto eu e minha esposa colhemos figos maduros; foi isso o que sonhei, nada me fará desistir. Agora, se Deus mandar um raio e destruir a minha figueira, somente neste caso irei planta-la em outro lugar.
- Pela vontade de Deus. Como se conhece a vontade de Deus?
- Ninguém conhece a vontade de Deus.- o homem riu.- Deus nos fala através do outro, mas é muito difícil silenciar o nosso tumulto interior, que por sua vez é violentado pelo barulho do mundo.
- Então, tudo é resignação…
- É fé. Temos que aprender ouvir Deus nos hiatos do mundo. A primeira vez que caminhei através das lavouras destruídas, vi as casas incendiadas, encontrei amigos feridos e parentes mortos, me desesperei. Pensei em desistir, quis morrer também; gritei por um sinal de Deus. Talvez você não entenda isso; geralmente os jovens conhecem a dor quando perdem um grande amor, mas você é muito jovem para tal desilusão. O fato é que pude sentir a presença de Deus no rosto de meus amigos, na terra germinando. Ninguém está realmente só. Eu pude ver a vida além da minha dor. Então, desistir, parar de lutar, é parar de viver.
- Entendo.
- Mas aprender terá que aprender sozinho. Sempre haverá coisas que somente seus olhos poderão ver, ninguém mais. Todo indivíduo tem a sua verdade particular. É o mistério de cada um.
A senhora corcunda afastou o cortinado da pequena caverna onde eles se encontravam. Sorriu para Edgar:
- Meu pequeno venha conhecer a sua mãe.
As mulheres que penteavam Heliodora saíram em silêncio quando Edgar entrou. A rainha estava sentada sobre uma pedra redonda e tinha os pés nus pousados sobre um tapete de pele de raposa. Os cabelos cor de mel caíam em ondas sobre os ombros e ela pousou sobre ele os olhos serenos. Edgar encostou-se à parede da caverna. O silêncio era de pura contemplação. Quem falou foi Heliodora:
- A minha ama sempre me falou de uma cidade dentro de uma montanha, onde aconteciam coisas fantásticas. Eu achava fantasiosas demais aquelas estórias. Hoje eu sei que no mundo não existe nada fantasioso demais; quem vivia num mundo de cristal era eu. Achava que as tormentas não me abalariam jamais. Hoje estou no ventre de uma montanha e presencio um milagre.- ela se pôs de pé e estendeu-lhe as mãos atadas por elos de corrente.- Eu acho que o mundo começa a ser maravilhoso a partir de agora.- seu coração disparou quando o garoto se aninhou em seu abraço. – Hoje vejo nos seus lábios o sorriso que morreu na alma de Dimas no dia em que te perdemos.
- É verdade, então? Quando me perguntavam por que não tinha mãe, não sabia a resposta. A compreendi num lampejo entre a vida e a morte. Perguntei-me por que Deus seria tão cruel. Nós sempre somos injustos com Deus, queremos que tudo seja fácil; mas Ele nos ensina a sermos fortes até o final, pois aí está a recompensa.
- Sabe, minha criança. Se as pessoas aprendessem a viver suavemente seria tudo mais fácil. Assim, da mesma forma que o sol se põe para a noite chegar, tranqüilamente sem deixar de ser glorioso. Hão de passar muitos anos antes que aprendamos todas as cores do céu. Esse é o presente de Deus. Seja bem-vindo de volta ao meu coração.

21  Perseguição

O Rei Dimas estava sentado ao lado de Ethel no trono. Tinha os olhos vazios e se movimentava pouco; Ethel transformara-o num fantoche de suas vaidades. Tirara-lhe a personalidade e toda a vontade própria. Amava-o raivosamente, um amor que não perdoava o fato dele ter escolhido Heliodora; jamais o perdoaria por isso e como sempre o amaria, nunca o libertaria do vazio que o retinha. Ele seria apenas o que ela quisesse, nada mais: para isso condenara a própria alma.
O Capitão da guarda entrou apressado, fazendo reverência:
- Majestade, o reino está uma zona!
- Mas que palavreado é esse, insolente?
- Desculpas, majestade: esse povo me deixa louco. Eles estão avacalhando o reino, sua majestade. Imagine que ontem, durante aquela cerração toda, os rebeldes conseguiram libertar o prisioneiro.
- O garoto?
- Exatamente.
- Libertaram como? Houve a execução. Eu vi.
- Eu também vi, majestade. Só que… Bem… Nossos homens enforcaram um boneco…
- O QUÊ?!
- Ma-majestade, os demônios dos rebeldes substituíram o rapaz por um boneco. Na confusão e com a cerração, os algozes não perceberam a troca.
- Seus homens não sabem a diferença entre um boneco de trapos e um ser humano?
- Era um boneco de trapo e madeira também, majestade.
- Por acaso ele gritou?
- Quem?
- O boneco gritou, chorou, fez xixi nas calças?
- Xixi! – o Capitão tapou a boca para esconder o risinho.- Majestade…! É claro que não, majestade.
Ethel, trêmula de ira, explodiu:
- CHACOTA! Meu reino é uma chacota!
- Majestade, as más notícias não param por aí. Todos comentam que o rapaz que ia morrer ontem…
- O boneco? – rugiu entredentes.
- Não! O fulano mesmo, de carninha e ossinho, bem, o garoto… Todos comentam que ele é o filho de Rei Dimas, aquele desaparecido no bosque… e que… Não sei se a senhora vai gostar de ouvir… Bem, dizem que o Príncipe Ricardo não passa de um farsante. Que o reino é uma fraude.
Ethel caminhou em silêncio até a janela, quando voltou seu semblante estava carregado de ira:
- Eu quero este rapaz aqui. Vivo. Traga-me Heliodora.
- Eu não queria que a senhora tocasse nesse assunto, mas já que insiste: ela fugiu.
- Eu não acredito…
- Nem eu, que danada, né? Fugir com aquelas correntes nos pés…
- Cale-se, cale-se, cale-se! Você me irrita! Matem todos os rapazes de quinze anos do reino.
- Como?
- Prendam e matem todos os rapazes de quinze anos do reino. Mas cuidado com a neblina, senão irão matar todos os marrecos do galinheiro.
O homem soltou uma gargalhada que reprimiu logo:
- Majestade! Mais alguma ordem?
- Queime vilas, espalhem o desespero. Se esse rapaz for mesmo um rei, virá ao meu encontro. Eu quero que ele venha a meu encontro. Ande rápido, vá!
O Capitão fez umas contas nos dedos:
- Majestade, o Príncipe Ricardo tem quinze anos, não tem?
O olhar de Ethel foi uma resposta bem convincente:
- É bom ir logo, né majestade? Parece que vai chover.

22 O Segredo
Foi num sonho, exatamente num sonho, que um anjo, pousando na janela do quarto de Heliodora, lhe revelou que teria um filho. A boa rainha sentiu-se invadida por infinita alegria, fitando o anjo emoldurado pela lua cheia. A criança continuara o anjo, traria a paz para o Reino de Íbis.
- Todo ser criado com amor é capaz de dar a paz. E o meu amor pelo meu filho já não tem limites.
- O Reino de Íbis está ameaçado pela escuridão. A fé é frágil e torna as areias movediças.
- Que palavras horríveis!
- Não se engane perante seu filho; ele não estará a seu lado quando precisar dele, mas jamais deixe de acreditar nele.
Heliodora, ferida pelas palavras do anjo, chorara.
- Nenhuma lágrima será em vão. Há apenas uma coisa que precisa saber sobre seu filho…
O reino era uma só festa por ocasião do nascimento do pequeno príncipe. Uma linda criança que todos amaram desde o primeiro momento. A alegria era tamanha que Heliodora esqueceu-se por completo do sonho e do anjo da asa quebrada. Então, tudo aconteceu…
O garoto já tinha um ano e Dimas há muito insistia em leva-lo numa caçada; enfrentava a oposição da mãe que achava uma temeridade levar uma criança para a floresta, num esporte perigoso. Mas tanto Dimas fez que Heliodora acabou cedendo e sentiu-se gratificada ao ver a alegria quase infantil do marido. Ele próprio encarregou-se de escolher a roupa que o garoto usaria, de encilhar o cavalo, ou melhor, o pônei, que ele montaria. Enfim…
Houve um terrível temporal; ventos tão fortes que derrubaram árvores e casas, matando animais. O garoto desapareceu na confusão que se formou. Ao saber disso, Heliodora correu para a floresta enlouquecida pelo desespero; foi recolhida semimorta, ferida, no fundo de uma vala. Choveu três dias seguidos, alagando as terras baixas do reino, mesmo assim as buscas eram ininterruptas. Nada adiantou: ninguém encontrou sequer uma veste do príncipe. No quarto dia, passada a chuva, o pequeno pônei voltou sozinho, sem o pequeno troninho que levava o príncipe.
O Reino fechou-se em tristeza; não havia como reacender a alegria que aquela criança trouxera e que levara consigo. Não havia como esquecer o pequeno Ricardo.
Passaram-se seis anos. Apresentou-se no palácio um emissário que voltava de uma missão incumbida pelo rei a uma terra distante. Ele, porém, trazia algo mais do que a resposta aguardada pelo rei:
- Precisei fazer um pernoite forçado, majestade, e parei num pequeno casebre. Lá moram uma velha surda, uma andarilha, e uma criança. A história que ela conta me impressionou profundamente, majestade…

22b O Segredo 2

Ele tomara a liberdade de trazer a mulher, para que o rei ouvisse da boca dela sua história, explicou. Fizeram entrar a mulher, uma triste figura maltratada pelos anos, que tinha o rosto todo encarquilhado pelas rugas.
- Eu fiquei surda aquela noite…- começou a contar, com os olhos perdidos no vazio.- Desde aquela noite não ouço nada, nem mesmo o pulsar de meu coração…
Contou que uma noite, há seis anos atrás, ela e o marido cortavam lenha na floresta próxima; eles eram lenhadores e trabalhavam até altas horas para, no dia seguinte, venderem na Vila, quando principiou aquele temporal medonho. De repente, um raio rasgou o céu e fulminou seu pobre marido, incendiando a árvore que ele cortava; nesse momento ela ficou surda e correu. Na fuga encontrou o pequeno cavalo vagando pela floresta, com uma criança em seu dorso que chorava assustada pelos relâmpagos que iluminavam aquele circo de horror. Ela levou o menino para sua cabana e cuidou dele; o garoto teve uma longa e forte febre, quase morreu. Mas tudo passou e os dois se mudaram para longe.
Quando ela se calou, todos choravam: o pequeno Ricardo voltara para casa. O pônei fugira, explicou a mulher, mas ainda guardava o troninho de seda e fios de ouro e o garoto ainda levava no pescoço a medalha, que Heliodora reconheceu imediatamente.
Não havia dúvidas: o belo garoto, magro demais devido à vida pobre, era mesmo o Príncipe Ricardo.
Houve festa no reino, desta vez multiplicada pelos anos chorados. O rei ofereceu ouro e guarida à mulher, mas ela recusou e, em meio à euforia geral, desapareceu.
O rei voltou a sorrir, porque há exatos seis anos, quando o menino desapareceu, havia perdido toda a alegria de viver. Não mais voltando a sorrir.
Até hoje muitos se perguntam que fim levou aquela abnegada mulher que, mesmo na pobreza, cuidou diligentemente do pequeno príncipe.
Pois bem, ao sair da sala de audiências, ela misturou-se facilmente à população que acorrera às portas do castelo assim que souberam da novidade e, por isso, ninguém viu quando ela entrou no porão do solar da Condessa Ethel, que vivia praticamente reclusa.

Sozinha na penumbra do porão, a mulher se despiu das vestes pobres e mergulhou numa piscina de águas azuis efervescentes. Sob a água ocorreu uma metamorfose impressionante: o corpo velho e enrugado rejuvenesceu instantaneamente e ao sair da água possuía um corpo de estonteante beleza. Ethel. O segredo de sua feitiçaria podia domar o próprio tempo, o envelhecimento e a juventude. Ela envolveu a nudez num roupão e subiu, para descansar.
Mas se a velha senhora é, na verdade, Ethel…

22c O Segredo 3

Pacientemente Ethel estudou feitiçaria anos a fio, não se importando em isolar-se do mundo; seu único intuito era vingar-se de Dimas, que a rejeitara por amor a Heliodora. Fez um pacto com o diabo, que lhe concedeu poderes inacreditáveis, poderes que lhe permitiriam ter o mundo a seus pés; mas somente lhe interessava a alma do homem que a desprezara. Assumindo a forma de uma loba foi fecundada e teve, na penumbra, isolada, um filho que nasceu num quarto escuro enquanto que, no mesmo momento, nascia o filho de Heliodora, sob festas e luz.
Chamou-o também Ricardo, porque ele deveria ocupar o posto de príncipe herdeiro. Porém ela nunca poderia livra-lo da angústia de toda noite transformar-se em lobo. Isso o fazia sofrer e Ethel sofria com ele; amava realmente aquele garoto. Era seu filho e o amava.
Seqüestrou o príncipe real e incumbiu um lacaio de leva-lo para bem longe e lá mata-lo. O homem deveria trazer a medalha de ouro que ele levava ao pescoço e a mão direita da criança, ao preço de noventa moedas de ouro.

O homem partiu de noite, com o precioso fardo. Parou, entretanto, numa taberna e tomou um porre em companhia de um desconhecido; na embriaguez contou toda a história da criança que levava escondida num cesto atado aos burros. O outro, bêbado, porém esperto, resolveu aproveitar-se da inconsciência do companheiro e ir ele próprio ganhar algum dinheiro do rei. Sim, ele ia levar a criança ao rei, com certeza ganharia mais que noventa moedas de ouro.

22d O Segredo 4

Não foi difícil achar a criança; colocou-a debaixo do braço, como fosse um saco de batatas e foi ao palácio. Tentou ir; estava tão bêbado que mal podia andar. Sentou num beco escuro para descansar e talvez tenha adormecido… Acordou com uma voz leve sussurrando a seu ouvido.
- Levante-se pobre homem. Este não é seu lugar…
- Não sou de lugar nenhum.
- Parta para Tebar, lá será feliz.
- Serei feliz… Preciso ir ao rei… Ele me dará as moedas de ouro da minha felicidade.
- Não tente vender o que não tem preço.
- Um bebê chora muito: só tem valor pra quem o ama.
- Mas você o ama!
- Ora, quem é você esperto? Como pode dizer o que sinto se nem mesmo eu sei?
- Eu sou o futuro que você sonhou. Levante-se e leve essa criança para Tebar e lhe ensine a sua fé, o seu caráter.Mostre-lhe como ser igual a você. È um ser humano bom, nada tem a temer; nada pode derrota-lo.
- Eu sou bom. E estou bêbado! Mas essa criança… deveria estar no palácio.
- Não é a hora. Você saberá a hora certa dele voltar.
- Por que fala tanto?! Tenho sono.
- Durma.
- Odeio pessoas que falam demais. – aninhou a criança sob seu casaco e adormeceu.
O anjo de asa quebrada, lá de sobre o telhado, sorriu e durante toda a noite velou-lhe o sono.
De manhã, o homem usando o último dinheiro que lhe restava, comprou um cavalo, charrete e mantimentos e partiu para Tebar.

 À criança chamou Edgar.
Então, como o lacaio conseguiu enganar Ethel?
Ao despertar na manhã seguinte na sarjeta, pois o taberneiro pusera-o porta afora, com o cavalo lambendo-lhe o rosto, o lacaio entrou em desespero. Sabia que, desobedecendo Ethel e perdendo a criança, sua vida já não valeria muito. Por dois dias esperou num esconderijo e como não houvesse notícias de uma possível volta do herdeiro real, resolveu enfrentar a Condessa e por as mãos nas suas noventa cobiçadas moedas de ouro e dar o fora, para bem longe: qualquer que tenha levado o pequeno príncipe não sabia, com certeza, quem ele era… Talvez o tivessem levado por piedade, julgando-o abandonado.
O caminho de volta foi penoso, o tempo todo ele tentava explicar para si mesmo, e de uma forma que convencesse a Condessa, um motivo para não trazer consigo a mão da criança. Foi então que cruzou, na estrada, com um cortejo fúnebre. Parou e tirou o chapéu em sinal de respeito; à frente do cortejo ia um homem que levava junto ao peito um pequeno caixão. A esposa, em prantos, caminhava apoiada em seu ombro. O lacaio sentiu-se renascer: estava salvo.
- Perdão, senhora…- dirigiu-se a uma das mulheres que acompanhava o enterro. – Quantos anos tinha essa criança?
- Ia completar um ano, quando a acometeu a febre.
De longe, o lacaio acompanhou a cerimônia. Ao anoitecer voltou ao cemitério e, desenterrando a criança, cortou-lhe a mão direita. Voltou para Íbis, radiante, levando numa caixa de madeira o seu tesouro.
Ethel recebeu-o com repulsa no olhar:
- Tiveste então coragem… Por que os homens são tão sórdidos quando há dinheiro envolvido?
O lacaio fitou-a atônito: como entender aquela mulher? Era um enigma. O fato era que Ethel jamais mataria pelo ouro; porque dinheiro não justifica atos vis. Pagou o homem e convidou-o para um brinde. O licor era bom, porém, no cálice que coube a ele havia cianureto. Mandou enterra-lo junto a sua bolsa de moedas de ouro.
Ao abrir a caixa de madeira, Ethel teve um choque: havia um pequeno detalhe que o tolo homem não atentara. A mão pertencia a uma criança negra. Ethel riu de sua precipitação: ao matar o lacaio destruíra a única chance de saber o que realmente ocorrera. Mas não se afligiu: mesmo vivo o príncipe não seria empecilho para ela.
Ricardo foi criado em meio ao carinho de Dimas e Heliodora, mas sob a influência maléfica de Ethel, que todas as noites vinha velar seu martírio solitário; protegendo seu segredo. Ninguém no palácio conseguia explicar o porquê de tão tristes lamentos, devido a isso algumas alas criaram fama de mal assombradas e eram evitadas.

23 O horror… 
Edgar colhia uvas para a rainha (que graças ao ferreiro conseguira ver-se livre das correntes que a prendiam), quando Pavel surgiu, pálido e afobado.
- Pavel, onde se meteu?
- Todos correm perigo. Venho do castelo e ouvi a ordem da Condessa.
- Que ordem? Por que está tão assustado?
- Ela quer você e condenou todos os rapazes de quinze anos a morte.
Heliodora soltou um grito desesperado, abraçando-se forte ao filho:
- Ela não pode fazer isso!
- O pior é que pode. Todos os garotos de quinze anos serão mortos, até que você se entregue.
- Não! Ela irá mata-lo também… Você não tem defesa contra ela!
- Não deixarei que o matem…
- Mamãe… Não se desespere. Não tenho medo de Ethel.
- É porque você é bom, é ingênuo… Não imagina do que ela é capaz. Ethel é um demônio.
- Previna os rebeldes, Edgar.- insistiu Pavel.- Os soldados atacarão de surpresa, será um massacre se eles não estiverem preparados.
Os rebeldes ficaram alertas durante toda a noite, mas foi somente ao alvorecer, quando alguns já se entregavam ao cansaço, que os soldados invadiram as Vilas. Iniciou-se uma sangrenta batalha nas ruas de Íbis: casas eram invadidas e de lá eram arrancados os garotos que, perfilados, tinham de declarar sua idade; os de quinze anos eram friamente executados. Os que tentavam fugir eram caçados, laçados e arrastados até a árvore mais próxima, onde eram enforcados. Casas incendiadas. Homens e mulheres, de espada em riste, resistiam furiosamente, utilizando tudo quanto podiam em sua defesa. O fogo, a morte, a dor e a agonia dominaram Íbis, tingindo a terra de sangue.
E o horror parecia somente estar começando…

24 Horror… 
Edgar tinha nas mãos a espada ensangüentada e, a seus pés, o soldado que acabara de matar.
- Isso não pode continuar! Veja o que causaste, Ethel!
Mariel surgiu, ela chorava também.
- Tem que ter um fim, Mariel! De que adianta viver assim…
- Vejo o teu coração carregado de ódio.
- As pessoas boas morrem sem defesa. Onde está o sentido disso? Ela me quer: irei a ela.
- Queria poder pedir-lhe que não fosse. Mas não posso, ninguém pode. Você tem de ir.
- Se preciso for barganharei com ela a minha morte. Fui criado por um carpinteiro; ele me ensinou a conseguir bons preços pelo meu trabalho.
- A batalha final se travará dentro de sua cabeça. Não se entregue nunca, não vacile ou ela te dominará.
- Ela quer me conhecer… Garantirei que se arrependa disso.
Edgar montou no cavalo e partiu a galope, floresta adentro.
- Edgar!
Nesse momento Heliodora assomava à porta da cabana, porém o rapaz já não podia escuta-la. Teve ímpeto de segui-lo, a deteve o Chefe dos rebeldes.
- Deixe-o ir.- disse o homem com admiração.- Um homem só alcança a paz superando a si próprio. Se alguém desistir diante de seus medos, jamais poderá ser feliz. Viver é muito simples, porém, nada é gratuito; a vida é loja de vitrine atraente, mas de preço exorbitante. Não podemos condena-lo a viver com o peso de tantas mortes nas costas.
- Que Deus o abençoe, Edgar. Todos os meus pensamentos estão com você.

O chefe dos rebeldes a conduziu para o interior da caverna, Lá muitos estavam refugiados em silêncio; ouvia-se apenas sussurros e gemidos de dor dos feridos que estavam sendo medicados. Todos os olhares se voltaram para os recém chegados.
- O príncipe partiu.- anunciou o chefe.
Heliodora não conteve o pranto e chorou, gritando de dor. As mulheres acudiram a consola-la e os homens abaixaram a cabeça respeitosamente. Sabiam que nada poderia ajuda-lo, mas sabiam também que se ele continuasse a se esconder, jamais poderiam perdoa-lo permanecer vivo enquanto os outros rapazes eram sacrificados em seu lugar.
O ferreiro começou a cantar uma canção triste, que falava de esperança e amor, enquanto batia, com força, o martelo contra a bigorna. Todos os corações permaneceram quietos, num medo coletivo de pensar.

 25 O Confronto

Escureceu completamente; nem mesmo as estrelas brilhariam aquela noite. – Oh, meu Deus, eles têm que acreditar…- murmurou Edgar fechando os olhos. Fazia frio e o cavalo caminhava lentamente pela estrada deserta. Os campos incendiados pelos soldados ainda ardiam em chamas. Eram manchas rubras na escuridão da noite.

O coração de Edgar estava carregado de revolta, pois ao longo do caminho vira as casas destruídas; os corpos mortos na batalha e os jovens enforcados nas árvores . Não encontrou viva alma nas ruas de Íbis, somente o horror.
Apeou diante do palácio e subiu a ponte elevadiça. Empurrou a pesada porta de madeira e entrou. Tudo estava imerso em penumbra. Tomou de um archote e foi investigar: a mão alerta pronta para sacar a espada.
Avistou uma sala totalmente iluminada; aproximou-se. Lá havia uma grande mesa, posta para três pessoas, talvez preparassem um jantar, e, de pé, ao lado da lareira, estava Ethel, magnificamente trajada: usava um vestido de seda negra que salientava suas formas sensuais.
- Cessa agora. A matança. Como se levantará o povo, Ethel? Eles são indefesos.
- Esperávamos por você.- disse em tom suave.
- Cessa agora. Por que causa tanta dor, Ethel?
- Oh, você não está vestido adequadamente!- ela parecia escandalizada com os trajes sujos dele. Aproximou-se, mas Edgar recuou instintivamente. Ela sorriu e, com um estalar de dedos, fez mudar as roupas dele. Edgar espantou ao ver-se usando uma vestimenta ricamente ornamentada.- Agora está melhor.
- Estou aqui. Por Deus, mande parar a chacina!
- Não há mais chacina. Você traz o coração torturado. Não se aflija…
Edgar riu nervosamente; na verdade tinha vontade de chorar, interiormente estava chorando, embora esforçasse parecer forte:
- Quem é você, afinal? O que quer?
- Falaram-te muito sobre mim, mas não te contaram uma coisa; a mais importante delas, talvez… Você não tem medo de mim, não é?
- Não.
- Admiro-te por isso. Todos têm medo de mim. São uns patifes.- ironizou.- O que tem em mente, Edgar?
- A liberdade. Vim barganhar a liberdade do povo.
- As pessoas jamais aprenderão a usar a liberdade que possuem. Elas amam os maus, porque somente assim podem mostrar o quanto são boas. Todos querem ser melhores que você; é assim que as coisas funcionam. Compre um belo cavalo e o seu vizinho imediatamente comprará outro mais lindo. Liberte um prisioneiro e ele voltará a beber e fazer arruaça.
- A imperfeição não justifica a opressão. Nós somos imperfeitos; por isso não somos totalmente coerentes. Mas não é possível suportar a maldade; não há alegria na desgraça.
Ethel aproximou-se da mesa e, pegando uma garrafa que continha um líquido avermelhado, encheu dois cálices:
- A sua inteligência impressiona por sua juventude.- ele estendeu-lhe um cálice.- É muito sensato.
Edgar hesitou. “Não beba nada das mãos dela. Edgar” A voz de Mariel voltou-lhe à mente.
- Tome.
“O licor é doce, mas absorve a alma”.
Edgar pegou o cálice; sentia-se estranhamente atraído por Ethel.
- Eu não tenho sede.
- Melhor. Assim pode apreciar o sabor; a fome ou a sede tira-nos a capacidade de sentir o sabor. É como um beijo: a pressa tira-nos a delícia do toque.- ela provou de seu licor.
“O perigo é Ethel; ela tentará seduzi-lo”.
Os olhos de Ethel estavam fixos nele, pareciam invadi-lo inteiro.
“Não beba nada das mãos dela, Edgar…”
“O licor é doce, mas absorve sua alma…”
- Beba.
“Não beba nada…”
“…beba…”
“O licor é doce…”
“Não…”
“…é doce.”
“…o licor…”
“…beba.”
“…Edgar!”
Ele levou o cálice aos lábios e sentiu a delícia da bebida.
“…sua alma…”
“…nas mãos dela…”

 25b O Confronto 2

 
Rolou nos lençóis macios, sonolento. Um uivo distante fê-lo despertar totalmente; sentou-se na cama e logo veio uma terrível dor nas têmporas. “Onde estou?” Levantou-se, tonto e caminhou para a janela. Ainda era noite e só então se lembrou de que estava no palácio, em companhia de Ethel. “Onde está Ethel?!” Não se recordava de ter entrado ali; lembrava-se da sala iluminada e do… “Licor. Oh, Deus… eu bebi o licor!” O que mais acontecera? Sentiu frio e deu-se conta de estar nu e tinha marca de unhas no peito e nas costas. Ele se deitara com Ethel… Envergonhado, cobriu-se.
- Mariel!- gritou.- Onde está você?
Uma luz tênue surgiu na escuridão e ele pode ver a imagem etérea de Mariel, indistinta como uma fumaça no ar; ela parecia sofrer.
- O que aconteceu, Mariel? Não me lembro…- tinha vontade de chorar.
- Você me desobedeceu, Edgar. Agora não posso mais ajudar.
- Não! Preciso de você.
- Você não entende? Se você se distancia do nosso conselho, nós… Eu e Pavel estamos morrendo… Você nos traiu…
- Perdoa! Eu fui fraco…
- Ethel está na sua cabeça, ela conseguiu entrar. Você tem agora que vencer a si próprio; distinguir o certo e o errado. Somente assim poderá vencer.
- Fica comigo, Mariel… Tudo parece um sonho… Eu tenho medo.
- È tudo um sonho, não se esqueça disso. Não se esqueça… Ou nós morreremos.
- Mariel!
Ela sumiu por completo.
Edgar se vestiu, o mais rápido que pode; tinha a visão turva e o cérebro funcionava devagar. Pegou a espada e saiu. Viu-se num interminável corredor, com uma centena de portas.
Abriu a primeira porta e recuou assustado, pois se via diante de um abismo sem fim, um poço de fogo; fechou a porta com o coração aos saltos. Era isso! Ethel  tentaria iludi-lo, por isso entrara na sua cabeça. Deveria distinguir entre o certo e o errado, dissera Mariel.
- Você não vai me enganar, Ethel! – gritou.- Está me ouvindo? Apareça, de onde estiver!
Mas ele sabia que ela estava em todo lugar. Passou por uma ampla sala, cheia de estantes com livros. Havia alguém sentado em uma poltrona, de costas para a porta, imerso na leitura. Aproximou-se. A pessoa, pressentindo companhia, virou-se.
Era o Rei Dimas, que se levantou ao vê-lo. Edgar ficou comovido: era a primeira vez que ficava diante do pai.
O Rei abriu os braços para ele, fitando-o nos olhos:
- É você… o meu filho? Queria muito conhece-lo.
Edgar adiantou-se, louco para entregar-se ao abraço do pai, quando notou a mofa no olhar do rei. Ele não poderia saber que era seu filho! Ethel jamais contaria. Rápido, sacou da espada e cravou-a no coração do homem que bradou selvagemente. De imediato, a pele foi-se rasgando e o sangue tingiu o assoalho; Edgar gritou de horror ante a demoníaca criatura de nervos expostos e músculos retorcidos que o agarrou e atirou-o contra a janela, fazendo-o mergulhar no ar frio da noite.

 25c O Confronto 3

O rapaz se debateu e gritou na queda livre, até sentir-se mergulhando na água gelada do lago e constatar que ainda continuava vivo. Voltou à tona. Percebeu que as águas do rio se moviam como se tivessem vida própria; uma coisa estranha e pegajosa roçou seu rosto e, num repente, estava cercado por um milhão de serpentes que se confundiam à superfície do que ele julgara ser o lago. Tomado de pavor, começou a desferir golpes de espada às cegas, tentando se livrar dos ofídios que se enrodilhavam pelo seu pescoço, corpo e pernas; infiltrando-se por sob suas roupas, sufocando. Correu até sentir a areia fina sob os pés e deixou-se cair, exausto.
- É tudo um sonho.- deitou-se ofegante.- É tudo um sonho. Seus truques são infantis, Ethel! – riu. – Que grande feiticeira é você? A quem assusta, afinal?! – ele se levantou e retornou ao palácio. – Estou voltando, Ethel. E vou matar você. Esconda-se sob suas máscaras, ou apareça e me enfrente. As suas ilusões não me assustam.
Uma centena de corvos pareceu se desprender da negritude do céu e começaram a voar em torno de Edgar, o deixando encurralado. Não tinha como espanta-los, ficavam cada vez mais furiosos e começaram a atacar, desferindo bicadas certeiras contra o rapaz, ferindo dolorosamente. Ele protegeu o rosto com as mãos e logo elas estavam em carne viva. Correu e entrou no castelo. Os corvos raivosos continuaram a se atirarem contra a porta, grasnando de forma ensurdecedora. Edgar escorregou através da porta e sentou-se, gemendo, tendo o corpo ferido e ensangüentado. Levantou-se e começou a caminhar, apoiando-se nas paredes; deixando sua mão gravada a sangue nas pedras. Sentia-se extremamente cansado e deitou-se num divã. As cortinas moviam-se ao sabor da brisa, criando fantasmas.
- Edgar…
A voz era doce, suavemente familiar. Ele abriu os olhos devagar.
- Míriam. – era de fato ela; tão ou mais linda como ele se lembrava. – O que fazes aqui, meu amor?
- Sou prisioneira do Príncipe Ricardo…- ela se ajoelhou perto dele e acariciou-lhe a face, a mão macia parecendo cauterizar as feridas. – O que fizeram com você?
- Oh, Miriam… Eu te amo tanto… – ele chorava.

Ela inclinou-se e beijou-lhe o lábio. Edgar envolveu os braços em torno de sua cabeça, pois não podia toca-la com as mãos feridas. Sentiu a pressão de algo que passava da boca de Miriam tentando entrar na sua; uma coisa enorme e áspera. Miriam se afastou e Edgar viu a enorme ratazana que forçava entrada por sua garganta. Miriam levantou-se rindo, gargalhando. Edgar enojado e assustado rolou no chão tentando arrancar de dentro da boca o animal que parecia estar devorando sua língua. Miriam ria macabramente e logo não era a amada menina e sim Ethel; era mais uma trapaça da feiticeira. Ela descobrira seus sentimentos. A ratazana pulou no tapete, se multiplicando em uma infinidade de ratinhos que fugiram. Logo Ethel se desfazia no ar, tomando a forma de uma águia e Edgar, tossindo, respirava aliviado sem o bicho asqueroso em sua garganta.
- Maldita.- rugiu esmurrando o chão.- MALDITA!
- Não se zangue, Edgar…- era a voz de Ethel, soando como um eco, vindo de todas as direções.- Olhe como seu coração está enegrecido…
Edgar sentia-se dominado pelo ódio; pôs-se de joelhos e constatou que seu peito estava lacerado, podia ver um coração negro, pulsando. Julgando-se mortalmente ferido, gritou; no mesmo instante a chaga não existia mais, somente ouviu o riso de escárnio de Ethel. “Ela está me enlouquecendo.”

- Levante-se, Edgar.
Edgar ergueu o olhar assombrado: era o seu pai, o bom Isaías, quem lhe estendia a mão. Levantou-se rápido e estavam já na sala de armas; as espadas reluziam presas à parede.
- É uma ilusão! – bradou recuando.
- Ethel me trouxe aqui; para feri-lo machucando a mim…
- Eu não acredito.
Uma adaga desprendeu-se da parede e voou, certeira, para cravar-se no peito do homem que foi impelido contra a porta de madeira. O sangue verteu num pequeno filete. Edgar viu a dor no olhar do pai e estremeceu.
- Meu pai…
Várias adagas foram atiradas contra o corpo do homem, como num número circense, crucificando-o à porta. Edgar gritava desesperado, era tudo rápido e ele nada podia fazer.
- Nem tudo é sonho, Edgar. – era a boca de Isaías que se movia, mas a voz era de Ethel.
- NÃÃÃÃÕ! – Edgar correu ao encontro do crucificado e foi retirando as adagas, uma a uma, no desespero de salva-lo, mas os gemidos de dor de Isaías pareciam cada vez mais fracos. Era realmente o seu amado pai; podia sentir seu coração pulsando fraco, o sangue quente molhando suas mãos, misturando-se as lágrimas; o homem que lhe ensinara tudo o que sabia. Caiu ao chão abraçado ao homem agonizante. – Não morra papai…- chorava. – Não morra…
O carpinteiro pousou nele os olhos embaciados pela dor e murmurou:
- Não deixe de acreditar na bênção de Deus, Edgar… ou o ódio irá destruí-lo. Afaste as sombras do seu coração para que o amor lhe guie os passos; se fosse de outra maneira, eu lhe teria dito.

Morto.

 25d O Confronto 4

Edgar ainda não compreendia muito bem a morte. Seria um sono passageiro ou um eterno anoitecer? A dor o deixava desnorteado. Estava agora caminhando num estranho labirinto de espelhos e seu reflexo ia deformando sucessivamente. O ódio estava fazendo dele, um ser grotesco. Ethel estava vencendo; ia minando a sua força de espírito, dominando-o aos poucos.
- Eu não vou me entregar…- disse num sussurro.- Nunca! – pegou uma cadeira e, feito um celerado, começou a quebrar todos os espelhos; os estilhaços voavam pelo ar em fragmentos de luz refletida.
Os espelhos destruídos abriram uma enorme cratera escura e um forte vento sugou Edgar para dentro de seu interior. Foi envolvido por um turbilhão de gritos e lamentos, de rostos contorcidos pela dor; imagens etéreas que se desvaneciam na escuridão tão logo surgiam. Era um caos de angústia: as almas aprisionadas por Ethel. Agarrou-se à maçaneta de uma porta e, com muito esforço, conseguiu girá-la. A porta cedeu e estava agora numa suíte dormitório. Sobre uma mesa, iluminada por velas, estava uma esfera de vidro.
- Miriam…
A menina fitou-o num misto de susto e felicidade:
- Temia que não resistisse… É bom vê-lo novamente.
Edgar pegou a esfera, sem entender o que acontecia. Miriam apavorou-se:
- Não…!
Num átimo de segundos a serpente-guardiã, que estivera oculta nas sombras, triplicou de tamanho, ao mesmo tempo em que asas gigantes se desenvolviam em seu dorso. Enrodilhou-se no pescoço do rapaz, tentando asfixia-lo. O rufar da s asas causando um vento forte que derrubava tudo ao redor. Edgar tentou valer-se da espada, que escapuliu de suas mãos; a serpente ia apertando o nó cada vez mais em torno das costelas do rapaz a ponto de quebrá-lo ao meio. Debatia-se angustiado pela dor e a ausência de ar nos pulmões. Deixou escapar a esfera que ao bater no chão, se partiu. Miriam rolou ao mesmo tempo em que o seu corpo voltava a adquirir o tamanho normal. Os estilhaços da redoma tornaram-se pó e desapareceram, assim como a serpente. Edgar caiu no chão, lutando para recuperar o ar dos pulmões. Miriam estava livre! Quebrara-se o feitiço.
Miriam amparou-o e, dando um forte abraço, beijou-o com paixão.
- Você tem a minha vida, de agora em diante. Eu te pertenço.
- Você pertence a si própria. É livre.
- Um dia você disse que me amaria para sempre…
- Não esqueci.
- Ensina-me e te amarei mil dias além da eternidade.
Ele beijou-a novamente. Com os lábios Miriam acariciou as mãos feridas do rapaz. Ela avistou o lobo primeiro e gritou, quando Edgar se virou foi derrubado pelo salto violento do animal em seu peito. Rolaram ambos, o rapaz e o lobo, pelo chão num embate de força terrível. Os dentes afiados da fera rasgavam a pele do jovem, já enfraquecido pelo cansaço e a dor. Miriam pegou a espada e feriu, de qualquer maneira, o lobo que caiu agonizante.
Um urro animal fez-se ouvir, fazendo estremecer a construção de pedra. Era um grito de ódio e angústia. Edgar olhou o lobo que tinha espasmos de agonia, respirando com dificuldade. O grito partira da garganta de Ethel; ele sentiu que ela fora mortalmente abalada.
- Não saia daqui, Miriam. – ele saiu sem dar tempo dela esboçar reação.
Miriam se viu só em companhia do lobo e foi com espanto no olhar que presenciou sua lenta e dolorosa metamorfose em ser humano.
“Ricardo…”
O rapaz arrastou-se no chão, banhado em seu próprio sangue e tentou toca-la. Ela recuou.
- Vê a minha condenação?
- Que horror… horror…
- Tenha piedade de minha alma, Míriam… Não me castigue por ama-la… Acabe com minha dor…
- Oh, meu Deus…- ela chorava.- Não…
- Mate-me! – gritou num gemido de força.
Miriam lentamente ergueu a espada, que agora parecia pesar uma tonelada.

 26 O Despertar 
O cantar solitário do ferreiro enchia a caverna de tristeza. Heliodora ajoelhou-se à margem do córrego cristalino, que brotava dentre as rochas, e orou. Assim viu, no espelho d’água, a frágil imagem de Mariel.
- É a última chance… Ele está enfraquecido…
- Por que nos abandona, anjo?
- Ninguém mais crê… Entende porque morremos? O abandonam… Faça-os ver que somente a esperança fará a força de sua espada… Será seu escudo. É a última chance…
Apenas a água corria entre as pedras agora. Heliodora levantou-se e correu para a gruta. A canção do ferreiro falava de esperança. Então, por que é um lamento? Porque a solidão aumenta o peso de tudo, aumenta a dor, aumenta a ansiedade.

Heliodora uniu sua voz à dele, com força, cantou o mais alto que conseguiu. O ferreiro a fitou entre surpreso e agradecido e sorriu. Heliodora começou a bater palmas, na cadência da melodia, e o ferreiro sentiu-se recompensado. A eles, outros se juntaram e logo todos cantavam; o que fora um triste lamento, agora era um canto de louvor, uma celebração de fé e alegria. Heliodora uniu sua mão à do ferreiro e abandonaram a caverna e as armas, seguidos de um cortejo, ganhando os campos, as ruas, as Vilas. Enchendo o ar de música, de esperança.

 27  Confronto Final

Edgar entrou no laboratório de maldades de Ethel. O local onde ela estudava e aprimorava seus conhecimentos: um local cheio de sombras, carrancas satânicas e objetos estranhos. Numa enorme prateleira ela guardava, em frascos coloridos, a essência vital das almas que aprisionara. A viu ajoelhada diante de uma mesa de pedra; parecia chorar.
Pressentindo a presença do rapaz, ela virou-se e caminhou lentamente em direção a ele.
- Você destruiu a única coisa boa que havia em mim. A única que me restou depois que Heliodora me roubou o amor de Dimas.- os olhos dela estavam vazios, sem pupilas, e isso o assustou. – Lhe falaram muitas coisas sobre mim, mas não lhe contaram o mais importante. No mundo inteiro apenas me restou uma coisa para amar; a única que jamais me rejeitaria. O meu filho. – ela esmurrou o próprio peito com tanta força que o punho o atravessou. Arrancou de lá o coração e estendeu-o em direção ao rapaz. – O amor que você destruiu.- e esmagou o coração entre os dedos.
Edgar desviou o olhar, chocado.
- Se o amava tanto, por que o condenou à escuridão?
Ela dera-he as costas e quando voltou a encara-lo seu rosto tinha tomado a forma de um dragão, com dentes aguçadíssimos. Ela cresceu numa rapidez vertiginosa; as mãos se transformando em garras, o corpo se cobrindo de escamas. E aquele rugido grotesco, horrível, arrepiante… Com um golpe de cauda atirou Edgar contra a parede, ao mesmo tempo em que lançava sobre ele um cuspe de fogo. Edgar procurava se defender se movimentando rápido, mas era praticamente impossível fugir da sanha assassina do monstro. Todo o laboratório havia se tornado um rio de fogo. O monstro prendeu-o entre as mandíbulas e elevou-o ao ar. Edgar, num movimento rápido deu um soco em uma de suas pupilas. A fera, urrando, soltou-o e ele caiu sobre uma mesa de frascaria e correu, galgando as altas prateleiras. Com um olho ferido, a fera rodava enlouquecida, expelindo fogo. Esperando o momento oportuno, Edgar saltou sobre seu costado e cortou-lhe o pescoço, com um golpe viril, decapitando o monstro. O rapaz foi atirado ao chão, juntamente com a cabeça do monstro, quando o corpo foi sacudido por estertores mortais. Pareceu ocorrer um terremoto, nesse momento. O chão tremia, abriam-se rachaduras na parede e no solo. Os frascos com as almas aprisionadas explodiam e o ar era colorido por estrelas que brilhavam forte e logo desapareciam; eram centenas delas que iam e vinham, à medida que os frascos se rompiam, numa velocidade alucinante. O corpo do dragão foi tragado pela cratera aberta pelo tremor de terra.
E tudo silenciou, num repente. Não brilhavam mais estrelas no ar da sala; a cratera havia se fechado e tudo parecia estar estranhamente no mesmo lugar.Tudo estranhamente calmo, outra vez. Como se nada houvesse acontecido, mas suas feridas diziam que sim. Edgar estava extremamente cansado. Ouviu música. As pessoas cantavam lá fora. Sim! Eles tinham vindo! Haviam vencido! A cabeça decapitada de Ethel jazia no chão, em meio a uma poça de sangue. Eram vitoriosos. Saiu à sacada e viu o céu manchado de um belo tom rubro alaranjado. Alvorecia. O sol nascia sobre Íbis. Ergueu a cabeça de Ethel acima de si próprio e foi ovacionado pelo povo que, cantando em comunhão, haviam chegado ao castelo.

 28 A Renúncia 
O sol rompeu magnífico num céu incrivelmente azul e a luz voltou aos olhos de Mariel, porém ela continuava triste.
- Os desejo são como aves que, uma vez aprendendo a voar, ninguém mais pode deter. Você não estava preparada para amar, Mariel. Mas quem está preparado para o amor, afinal? Ele sempre será mais astuto que qualquer coração.
- Jamais voltarei a ser a mesma pessoa, Papai… O senhor deve me deixar ir…
O pequeno velhinho caiu em profunda tristeza:
- Sabe o que isso significa, Mariel?
- Sei.
- Se ele não te amar, não poderá voltar.
- Não tenho outra saída. É ficar e morrer ou partir e tentar viver.
- Os meus olhos sempre estarão contigo, Mariel.
Ele consentia. A menina se encheu de alegria e beijou a lágrima que brincava no rosto do pai.
As mulheres do clã vestiram Mariel como uma princesa. Ela ficou ainda mais linda, toda de branco, com um delicado chapéu e véu cobrindo o rosto. Mariel, a um aceno do pai, desenvolveu-se fisicamente e logo ficou da estatura de qualquer garota de sua idade, quatorze anos. Agora era uma pessoa normal, sem poderes especiais; sujeita ás mesmas alegrias e frustrações. Poderia parecer loucura, mas ao se apaixonar por Edgar, quebrara a principal regra de seu povo e não poderia mais pertencer àquele mundo. Despediu-se de cada um com lágrimas nos olhos; mas cada lágrima que ela derramava era transformada por eles em diamantes e lhe devolviam em forma de presente. De repente ela ria tanto, que não chorava mais.
Somente Pavel se recusou a se despedir:
- Você é uma tola, Mariel. – desabafou magoado e desapareceu.
Ofereceram a Mariel um airoso cavalo e ela partiu.

 29 Os Caminhos do Coração

 
Com o sol veio a liberdade. Íbis estava livre dos poderes malignos de Ethel e todo o malefício causado por ela foi anulado com sua morte.
A praça estava ruidosa em um misto de reverência e lágrima aos que haviam tombado no combate e na e na expectativa da reconstrução do Reino, agora fundamentado na renovação e esperança.

Havia alegria e comoção no reencontro com os rebeldes que haviam sido feitos cascalho. Lembra-se da boa senhora? Ela também reencontrou seu filho Mateus. O Rei Dimas pode novamente abraçar seu grande amor, Heliodora, e conhecer seu filho, Edgar, o verdadeiro príncipe; mesmo sabendo que ainda por muito tempo ocuparia o posto de amigo, pois não seria capaz de reivindicar o posto de pai, que Edgar reservou a Isaías, ficou feliz.
Era, enfim, a paz em uma terra que por muito tempo fora torturada pela escuridão.
Miriam reencontrou seu pai, o Conselheiro, entre os prisioneiros libertos da masmorra. Feliz, foi ao encontro de Edgar, que correu a abraça-la.
Nesse momento chegava também Mariel, abrindo caminho entre a multidão que se acotovelava para ter a honra de cumprimentar a família real. A alegria em seu coração foi subitamente massacrada ante a visão de Edgar abraçado a Miriam, feliz. Sabia que o rapaz não a amava; mas ainda tinha esperança. Naquele momento o mundo pareceu desabar sobre sua cabeça e ela chorou.
- Por que chora, criança? – perguntou alguém.- Não há mais motivos para chorar.
- É de felicidade, meu amigo.- murmurou. De que adiantaria mostrar a ele sua dor? Edgar não merecia sentir remorsos por algo que somente ela sentia. Abaixou a cabeça e partiu, sem olhar para trás.
Miriam deu um beijo na face de Edgar. O rapaz desviou os olhos dos dela para esconder a sua decepção.
- Você me entende? – suplicou ela.
- Entender não significa compreender. Um animal ferido não aceita que o toquem; um coração partido não ouve desculpas…
- Não são desculpas…!
- Pra mim sempre serão desculpas qualquer palavra de consolo. Nada vai mudar o fato de…
- Todas as noites eu ouvia aqueles lamentos; naquela dor não havia ira, impaciência… Não havia revolta. Apenas compreensão. Eu me perguntava… Quem será tão forte criatura que sofre sem perder a dignidade? Eu me apaixonei, então, pela força daquele ser; todos deviam amar aquele que sofre em silêncio, mas, em nosso egoísmo, raramente os reconhecemos.
- Não confunda amor e piedade.
- Eu sei a diferença. Quando vi Ricardo ferido, tive a certeza de que ele iria morrer; só então compreendi que sempre o amara. O desprezava pelo que Ethel espelhava nele e isso destruía suas qualidades. E ele me pediu para morrer… e eu percebi que não poderia viver sem ele. Eu o amo.
- Desejo que seja feliz.
- Eu serei, meu amigo. Você também será, por isso o deixo sem dor no coração.
Edgar sorriu:
- Adeus, Miriam.
Naquela mesma tarde Miriam e o Conselheiro partiram numa carruagem, levando Ricardo que se convalescia. O amor de Miriam o salvara, mas, ainda, durante todas as noites de sua vida, se tornaria um lobo, na sua eterna condenação. E, assim, uivaria para a lua.

 EPÍLOGO: Nos Lugares Certos 

Edgar apeou e amarrou Pégaso ao tronco da árvore; depois galgou até o galho mais alto e lá sentou, ficando a observar a planície florida que se estendia até longe, onde começavam as montanhas do Vale dos Sonhos. E pensar que até bem pouco tempo atrás tudo aquilo era um deserto onde ele quase morrera de fome e sede!

Fora bem naquele local que ele se encontrara pela primeira vez com Mariel e os homenzinhos do clã; todo dia voltava ali, mas eles não apareciam. Desde que tomara do licor oferecido por Ethel, os pequeninos o haviam abandonado e isso o entristecia.
- Isso é uma mentira, seu calhordão!
A inconfundível voz de Pavel, sempre mal humorado. Edgar olhou em redor e nada viu. Sorriu, pois pressentia a presença do amiguinho.
- Pavel! Onde estava você? Por que não me procuraram mais?
- Ora, temos muitas coisas a fazer. Não podemos ficar o tempo todo paparicando você. Além do que, você cresceu, Edgar. Mostrou que sabe muito bem cuidar de si. Você trouxe a paz de volta a Íbis. É um homem agora. Somente um grande homem pode vencer uma guerra sem derramar sangue inocente.
- Eu sinto saudades de vocês! Onde está Mariel?
- Mariel já não está entre nós.
Edgar sentiu um aperto no coração.
- Deixe de brincadeiras, Pavel. Apareça.
Pavel finalmente apareceu. Edgar riu:
- Então, era “esse” o verdadeiro tamanho de vocês?
Pavel se queimou:
- Eu sabia! Continuas um patife, príncipe da tolice.
- É uma brincadeira, Pavel. Pô, que baixo astral! Antes você era muitíssimo pequeno… Agora você só é pequeno pra caramba.
- Puxa, Edgar, eu não tinha reparado ainda… Você é meio vesguinho, né?
Agora foi a vez de Edgar se injuriar:
- Vesguinho o seu nariz! – ele ficava fulo quando reparavam nesse pequeno detalhe que “quase passava despercebido”.
Eles se olharam e, rindo, disseram em coro:
- Calhordão.
- Mas, deixa de zona, Pavel. Onde está Mariel?
- Eu soube que Miriam partiu com Ricardo.
- Ela chegou à conclusão que gostava dele. – disse simplesmente.
- E você?
- Estou por aí… Devagar tudo desaparece… eu não sei. Sinceramente. Acredito que Deus sempre coloca as coisas nos lugares certos.
- Mariel não sabe disso.
- Ora, deve saber; vocês sabem tudo.
- Mariel não pode mais viajar no tempo.
- Como?
- Ela não é mais uma de nós. Ela trocou tudo… a vida eterna, seus poderes de fada, por uma condição uma humana. Por uma vida menos fantástica.
- Por que ela faria isso?
- Você não percebeu? Ela sempre amou você; o coração dela nunca te abandonou. Veio a seu encontro e viu Miriam em sua companhia; achou que não tinha o direito de atrapalhar sua felicidade. Grande tola, se não tivesse renegado seus poderes saberia que Miriam estava se despedindo de você…
O coração de Edgar estava descompassado:
- Onde ela está agora?
Pavel sentou-se no galho, ao lado de Edgar. O galho pareceu ceder perigosamente.
- Ela…
CRRRRASSSSSHHHHHH…
- Caramba, Pavel, tu tá gordo pacas…
O galho quebrou e lá iam os dois caindo. Pavel deu uma pirueta e flutuou; Edgar caiu sentado sobre o lombo de Pégaso que disparou campina afora. Edgar não teve controle sobre o cavalo que correu feito um celerado até uma taberna a beira da estrada. Só aí ele parou, muito dono de sua vontade, e foi beber água no cocho, tranqüilamente. “Isso é arte de Pavel”, resmungou Edgar. “Ah, se pego o patife…” Vinha alegre cantoria do interior da choupana e ele resolveu entrar.
O ambiente era limpo e agradável. Havia muitas pessoas e todas as atenções estavam centradas numa linda garota que fazia truques de mágica enquanto contava piadas. Fazendo todos se divertirem a valer. Edgar assistiu ao número maravilhado. Mariel. “Obrigado Pavel.”
Terminada a pequena apresentação, todos voltaram a se sentar, aplaudindo, e ela voltou a seu trabalho: era uma garçonete ali. Edgar sentou-se também, imerso em seus pensamentos, cabisbaixo; o chapéu ocultando-lhe o semblante. Ela veio até ele:
- Faça o seu pedido, senhor…
- Fica comigo…- Edgar fitou-a emocionado. – E nunca me abandone…?
Mariel uniu as mãos e levou-a aos lábios, como querendo conter um grito:
- Nunca.
Edgar levantou-se e a tomou nos braços, feito fosse um sonho.

 Publicado originalmente em: http://aldeiaoficial.blog.terra.com.br

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.