Algo que Mariana nunca deveria ter de ouvir
Vanessa olhou Mariana de uma forma que conheço bem: os olhos mais verdes do que nunca, fixos, faiscando, que me faz tremer e eu ainda não entendo bem. Só sei que olhando assim não é fácil esconder a verdade dela:
- Seja sincera com você mesma… olhe com clareza todos os momentos que vocês vivenciaram juntos e responda: Alguma vez ele demonstrou que gosta de você da mesma forma que você gosta dele?
Mariana soluçou e uma lágrima correu pelo rosto já úmido de choro:
- Nunca.
- Então entende que nada depende de você?
Um dia Ricardo disse que não entendia essa coisa kamikaze de, mesmo sabendo que vamos quebrar a cara, termos dificuldade em voltar atrás, abrir mão do que queremos. Francamente, também eu não tenho essa sabedoria.
- Maior que nós todos é Deus, minha querida e Ele garante que o choro pode durar por toda uma noite, mas a alegria vem pela manhã.
É. Desejariamos nunca ter de atravessar essas noites intermináveis. Jansen Packar, quer saber mais?
Algo que poderíamos falar a Mariana
Eu queria poder dizer a Mariana que tudo isso passa e, um dia, ela verá as coisas com a serenidade(ou sabedoria) de Fernando Pessoa: “Todas as cartas de amor são ridículas/mas não seriam de amor, se não fossem ridículas/Na verdade as lembranças que hoje tenho daquele amor/é que são ridículas”. Mas, penso: não estarei eu a condenando a um extremo desacreditar?
Gostaria de dizer a Mariana, que não vai doer, embora saiba que o caminho do desapego é inevitavelmente doloroso: a semente morre antes de florescer. Então, senhores espertalhões do mundo, minimizem isso!
Bem podia dizer a Mariana que a verdadeira definição de amor é aquela que Meg Ryan dá a Matthew Brodderick em A Lente do Amor: “Um dia meu pai achou um cachorro doente na rua; ele tinha bicheiras pelo corpo todo. Então meu pai cuidou dele pacientemente; ele enfiava o dedo nas feridas para tirar os vermes que iam se multiplicando. Não se importava se tinha, até mesmo, de tirar vermes do ânus do cachorro, tudo o que ele queria era a sua cura. Isso é amor.” Eu adaptei as palavras, não são as mesmas do roteiro, mas o sentido está preservado. Mas, penso: que adianta saber isso, se na nossa ansiedade, preferimos as paixões de telenovelas?
Poderia também dizer a Mariana que esses amores rejeitados um dia vão se tornar como aquela histórinha que o tiozinho do cinema conta ao rapaz em Cinema Paradiso : o amor do guerreiro pela princesa, os cem dias de esperança… e o amor se cansa de esperar e vai embora. Mas, penso, há amores que jamais se cansam: se transformam.
Então, o que posso fazer quando a minha amadinha amiga aborrencente chega, com os olhos mareados de lágrimas e as primeiras frases de amor escritas nas páginas do caderno, e se aninha no colo de Vanessa?
Preparo a pipoca e escolho um filme bem inofensivo: 2012, crente que não há riscos de lágrimas românticas.
Mariana até se descontraiu, vibrou, e soltou um gritinho de susto: aquela luz no rosto juvenil, queimado de sol de tanto andar de skate.
Ao final ela disse que adorou:
- Sabe o que eu mais gostei?
Dos efeitos especiais bombásticos e de última geração? (ingenua esperança!)
- Não. Daquilo que o John Cusak falou pra Amanda Peet no final.
Eca! As vezes a gente esquece que paixões são mel com morango demais!
Jansen Packar. Quer saber mais?
As verdadeiras amizades, segundo Renato Leitinho
Esta é mais uma das centenas de mensagens que lotam nossas caixas de e-mail:
A VERDADEIRA AMIZADE FEMININA
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Enviado por renatoleitinho em 25 Abril, 2004 – 21:22
Duas mulheres se encontram na rua, uma delas saindo do cabeleireiro:
Mulher 1: Olá, querida!!! Você cortou o cabelo?
Mulher 2: Cortei amor! Você não imagina com quem… o Edson,
aquele mago da tesoura.
Mulher 1: Maaaraaaviiilhooosooo. Ficou 10 anos mais moça. Essas
mechas, que bárbaro! Vou mandar fazer igualzinho. Foram luzes?
Mulher 2: Não menina, é uma técnica nova de clareamento que ele
trouxe da Itália. Imagina que… (Meia hora depois…)
Mulher 1: Então tá bom querida. Corre pra casa que teu namorado
vai morrer de orgulho da mulher que tem.
Mulher 2: Ai amiga, te adoro! Beijinhos!
Mulher 1 sai pensando: Como essa perua ficou ridícula! Será que
ela não se enxerga? Não sei como aquele gato do namorado dela
continua com ela. Se der mole eu agarro ele.
Mulher 2 sai pensando: Essa galinha deve estar morrendo de inveja
do meu visual. Ainda quer fazer igual, vê se pode! Com aquele cabelo que parece um arame. Nem com implante!
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A VERDADEIRA AMIZADE MASCULINA
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Dois Homens se encontram na rua, um deles saindo do barbeiro:
Homem1 : Opa! E aí seu filha-da-puta? Tava cortando o cabelo né?
Homem 2: Não jacu… tirei pra lavar, aproveitei e deixei a orelha crescer!
Homem 1: Que merda de corte, hein? Tu tá parecendo um viado. O cabelereiro entendeu PRA BICHA ao invés de CAPRICHA é?
Homem 2: É… mas tua mãe gostou.
Homem 1: Falou então!…ah, manda um beijo pra aquela gostosa da tua irmã, viu?
Homem 2: Vai se fuder, seu corno! Até mais!
Homem 1 sai pensando: Esse cara…Gente finíssima!
Homem 2 sai pensando: Adoro esse cara… Muito gente boa…
Aí sim… fomos surpreendidos novamente.
Jansen Packar. A liberdade não censura as expressões: as verdadeiras amizades permitem zoações assim. Quer saber mais?
O Apache
De vez em quando, depois de uma festa ou de uma reuniãozinha de amigos durante a semana mesmo, sempre cabe a mim e à Vanessa levarmos quem bebeu demais para casa.
Não raras vezes acontece da gente descobrir que esse amigo não quer chegar logo em casa e então procuramos alguma padaria já aberta, não para uma saideira, mas para, chamamos assim, uma restauração moral. Ou seja, aquele momento em pode falar o que sente ou simplesmente se recompor para o resto do dia.
Eis assim, Henrique, olhando fixamente para seu copo de café extra-forte por um bom tempo. Vanessa cochila no meu ombro e eu fico olhando a chuva fina lá fora. Do outro lado do balcão tem um senhor que, há bem uns dez minutos, segura um copo com meia dose de aguardente, na altura do ombro, enquanto fala uma língua que só ele entende(eu só consegui entender internet e dez milhões).
- Eu me sinto um apache. Sabe um guerreiro apache?
Assenti com a cabeça, mas não falei nada. Vanessa desenhou círculos no balcão. O senhor continuou falando no seu idioma alienígena e eu entendi internet de novo.
- Se uso flechas, são pesadas demais….- ele tomou o café em dois goles.- Vamos embora?
A gente se levantou e o senhor nos saudou com o copo. No carro, Henrique permaneceu calado, no primeiro semáforo começou a cantar, com a voz limpa, pausadamente:
- Me sinto um tolo como um viajante dentro da tua casa… pássaro sem asa…
Essa deve ser a hora das línguas incompreendidas; acho que isso justifica o caminho do Henrique e o daquele senhor senhor terem se cruzado.
Jansen Packar. Quer saber mais?
Momento Zen… tecnologia
- JP, sabe qual foi o pior presente que dei aos meus pais?
O Ricardo se sentou na minha frente com aquela cara de “estou precisando desabafar” que ele faz sempre e, pra variar, colocou o copo d’água na minha mesa limpinha.
Com certeza foi aquele trambolho de frigideira; ninguém supera aquilo! Ele, seguindo a teoria que a Dona Tereza ama cozinhar, comprou uma frigideira imensa que, fora de uma cozinha industrial é uma dor de cabeça pra qualquer um: onde guardar aquilo em casa? Dona Tereza disse que adorou, mãe é mãe, e rodou a cozinha coçando a cabeça, até que resolveu pendurar a frigideira na porta.
- Até que fica bem, aqui, né?
Ficou, mas também virou praticamente um gongo, já que cada vez que a garotada batia a porta, retinia. Dona Tereza só dava aquele sorrisinho de mineiro, que não se sabe se está rindo pra ou da gente.
Dia desses fomos lá na chácara e ela tinha transformado a frigideira em piscina pros patinhos. Até que era bonito ve-los se acabando de alegria na água.
- Que nada. Foi o computador. Desde que eles aprenderam a mexer naquilo vivem brigando. Ela diz que meu pai fica jogando até as três da manhã e o dia inteiro também; com isso ela quase não pode entrar no Orkut e no Msn.
Mas isso sempre acontece. É um mundo novo pra eles.
- Meu pai está impossível mesmo, você acha que ele joga paciência? Que nada, rapaz! É Gears of Wars, Assassin’s Creed, Crysis… já está dominando até a gíria … Não é facil, não. Ontem ele me ligou, estava irado. Diz que a mãe ficou a tarde toda no bate papo. – aqui ele riu. – Ficou danado com o nick name dela. Adivinha qual é o nick da mamãe?
Nem imagino.
- Milu Gatinha.
Risos. Será que a sua mãe entra na sala de sexo virtual?
- Vai se f…, JP.
Momento Zen… e a torta de blueberry
- JP sabe o que eu estava pensando?
Em me ajudar a lavar a moto?
- Não, isso é brinquedo de meninos. – ela estava mais preocupada em pintar as unha dos pés. – Estava tentando entender essa mania das pessoas em reclamar do alimento.
Hum, ainda está encucada com a torta.
- Minha mãe sempre ensinou que a gente conhece uma pessoa pela forma como ela se alimenta e isso implica na aceitação do alimento. Tipo se não gosta não pega, mas deixa a critério do outro decidir se quer ou não, simples assim…
Não é nada fácil: tem a ver com aquele lance das idéias que você disse: impor, convencer, angariar seguidores… Lei da caverna: quem fornece o alimento tem o poder.
- Eu sei… Mas cheguei a conclusão que esta mania é um déficit emocional.
Eita!
- Veja por este lado. Alimentar-se, digo alimentar-se bem, envolve necessidade e prazer, e consequentemente envolve culpa. Inconscientemente a nossa solução mais rápida para a culpa é a negação das necessidades e do prazer. Fazendo isto sistematicamente, você não deixa de sentir prazer, vontades ou culpa, o que o torna uma pessoa permanentemente insatisfeita, mesmo quando saciada.
O que o Dalai Lama chamaria de caminho do sofrimento.
- Uma mutilação emocional. Com o tempo a pessoa não consegue mais amar, sentir prazer ou suprir suas necessidades se não propor culpa ou condições a outros. Já criou uma bolha de insatisfação ao redor de si.
As Tias e a Torta de Blueberry
Desde que Vanessa assistiu a Um beijo Roubado(My Blueberry Nights), encasquetou de fazer a torta que aparece no filme.
Pesquisou na internet e achou uma receita no www.suareceita.com.br
Conseguir o tal blueberry – ou como chamam por aqui mirtilo, ou frutinha minúscula (não passa de 4 gramas) que quase ninguém conhece, de um forte tom azul-marinho, que deixa na boca um gosto doce-ácido que lembra o da pitanga. Ou seria o de framboesa? Ou talvez da caipira gabiroba? – foi uma outra maratona.
Como ela gosta de viver riscos, resolveu fazer a tal torta para o churrasco de aniversário da tia Gabriela, tia dela esclareça-se. Perguntei se não era melhor fazer um pudim de leite:
- Pudim de leite todo mundo faz.
Por isso é um clássico e é por isso que clássicos existem. Todo mundo come, ninguém reclama. Só é doce, sem sabores estranhos a adivinhar.
A torta ficou bonita. E, na mesa, foi o centro das atenções. Todo mundo queria sabe o que era aquilo.
- É torta de blueberry.
- Humm… que chique!
- Tem vitamina K.
Contrariando a minha expectativa, a torta não foi rejeitada, pelo contrario, não sobreviveu para a ceia noturna, mas provocou um festival de “eu não gosto disto”, “não gosto daquilo”, “não como assim” , “não como assado”, enfim, uma interminável lista de reclamações culinárias.
Vanessa ficou emburrada. No caminho de volta disse apenas:
- Devia ter feito o pudim de leite que você pediu.
Preferi não comentar.
Dr. House, Wilson e o insight de Vanessa
Vanessa tem o dom de me surpreender sempre. Talvez pelo indivíduo sugestionável e previsível que sou. Não sei.
O fato é que ela sempre apresenta soluções e argumentos como um mágico tira coelho da cartola ou faz pombas aparecer ao estourar bexigas(vi esse show quando tinha 14 anos e até hoje não sei como aquele cara fez aquilo).
Quando comparei esses insight aos do Dr. House ela não gostou muito.
- Está querendo dizer que sou feia e mal criada como ele?
Não. Me refiro à forma de resolver problemas. Aquele mesmo olho viajando pelo espaço. Mas as semelhanças param por aí.
A campainha tocou e ela foi atender. Voltou com umas contas a mais para pagar. Era o carteiro.
- Você deve pensar assim porque parece o Wilson.
Estrábico e sem graça como ele?
- Há várias formas de se apresentar idéias: impondo, rebatendo, debatendo, concordando, discordando e um monte a mais… É esta a função da equipe do House, às vezes até da Cuddy. Já o Wilson ouve mais do que fala e quando fala, não confronta. Assim possibilita ao House acessar os dados obscuros do seu raciocínio. Quando estou perto de você é igual. Minha mente fica tranqüila, assim eu consigo pensar mais globalmente.
Uia! É como eu digo, perto de Vanessa não sei o momento seguinte que vou viver isso é legal. Nunca haviam dito isso antes, pelo contrario já tinham insinuado que eu era manipulador.
- Será que a amizade deles, agora, ficará abalada?
Ela se referia ao final da quarta temporada. Espero que não.
- Tem pessoas que fazem a gente ser melhor.
O ócio e o vigilante
Há dias estava me sentindo um tanto pressionado. Fico assim sempre que tenho que finalizar um projeto que me desafie. Então busco formas de abstrair, seja uma partida de xadrez ou um jogo no Playstation ou uma invenção qualquer que, muito provavelmente, ficará inacabada. Sei que esse escape é vão na medida em que me cumula de coisas que não tenho intenção de terminar, mas é algo que não consigo corrigir.
Daí a Zanza do 9º andar, que achava que não me conhecia tanto já que nossos mais freqüentes encontros são no elevador, me disse algo inesperado na sala do cafezinho:
- Eu achava que você não gostava de café. Nunca te vejo por aqui.
Deve ser porque os horários não coincidem, disse sabendo que era falso: se o Ricardo não chama, acabo esquecendo.
- Mas, sabe o que eu acho? Acho que você deve viver mais seu momento de ócio. Aposto que na roda da cerveja o seu copo é sempre o primeiro que fica vazio.
Eu já ia enchendo o segundo copinho de café enquanto ela ainda estava pelo meio do seu. Não pude deixar de rir.
- Não quero dizer que ser produtivo é ruim; mas se não conseguimos romper laços, ficamos eternamente com pendências.
Resumindo você me acha chato.
- Resumindo você é mais divertido quando não está tentando resolver tudo.
Zanza que raios é você: guru, venusiana, fada dos dentes…
- Digamos que sou a sua mais nova amiga do 9º andar.
Olha, sei que não foi uma cantada, mas fiquei com aquele mesmo risinho bobo no canto dos lábios o resto do dia.
Eu nunca gostei da palavra ócio; nas poucas vezes que uso soa invariavelmente com uma conotação pejorativa: assim vão entender que não consegui ignorar aquelas palavras da Zanza.
Sempre que uma palavra fica martelando na minha mente, tenho a mania de ir buscá-la no dicionário, mesmo que eu saiba o significado; gosto de ver todas as formas de interpretação, me possibilita mudar meu julgamento.
Está lá:
Ócio, s.m. Lazer; vagar; descanso; folga do trabalho; repouso; preguiça; ociosidade, s.f., o vício de gastar o tempo inutilmente.
Entendi o que a Zanza quis dizer. Na hora do almoço comprei um cachorro quente e me sentei na fonte. Tirei os sapatos e coloquei os pés na água. Não demorou muito e o segurança veio me dizer que não podia ficar ali.
A verdade é que parece que alguém sempre fica incomodado como nossos momentos ociosos.
À noite, antes de dormir me olhei no espelho e o sorrisinho de alívio ainda estava lá. Essas coisas me fazem sempre louvar a Deus: essas pessoinhas que, parecendo de brincadeira, Ele manda para nos fazer ver e partilhar os jugos que secreta ou inconscientemente carregamos.
Sou Jansen Packar. Quer saber mais?
A Terra dos Sonhos e o Rio Ganges
É meus amados, nunca digam desta água não beberei. Isso não é ameaça ou profecia: é uma constatação.
Pois bem, o Ricardo me “zoou até”(não foi só ele: Vanessa e Cia. também) por conta daqueles devaneios com o Gato Félix. Daí, ontem, eram umas 23:50 hs mais ou menos e o telefone tocou:
- Não vou perguntar se te acordei, pois sei que nunca dorme a esta hora. Que está fazendo?
Depois de ver o Fluminense dar uma sambadinha em cima do São Paulo (não que eu tenha gostado, mas foi legal), já fiquei sabendo que o Supremo se valeu das brechas da lei para permitir que pessoas que burlam a lei estejam aptas a se eleger para cargos que fazem essas leis: é a verdadeira vergonha nacional e, mais uma vez, cursos que pouco educam serão testados; assim tudo acaba em Olimpíadas e ainda reclamam quando a China, à moda dela, tenta por ordem no barraco.
- Ahn… Estava assistindo uns programas na TV Escola sobre o planeta Terra… Cara, não é que esse negócio de sonho é sinistro mesmo?!!
Como assim?
- Passou uma cena de um rio na Índia, onde as pessoas vão se banhar; na margem desse rio tem uma escadaria, onde fica muita gente. Pensei nossa, já vi isso…. Aí lembrei que foi num desses sonhos repetidos que a gente tem quando adolescente…
Sonhos recorrentes.
- É isso aí; sonhei várias vezes com essa escadaria na beira de um rio, onde as pessoas se sentavam pra se banhar. Nunca vi nada tão igualzinho.
Não há possibilidade de uma memória remota de algo que você viu na época?
- Não sei, JP. Mas naquela época as poucas vezes que ouvi falar em “caminhos para as Índias”, o máximo de que eu me lembrava era da Iracema do José de Alencar. Doideira, né? Se eu falar que sonhava com as escadarias do Rio Ganges, ninguém acredita…
Eu pouco sei sobre o Rio Ganges, por isso procurei na net e achei um artigo da Folha de São Paulo, está aí:
Índia: Dia-a-dia de Varanasi deságua no Ganges
O dia começa cedo em Varanasi, uma das mais antigas e religiosas cidades do mundo. Ao surgirem os primeiros raios de sol, a cidade, no lado oeste do Ganges –o rio mais sagrado da Índia–, e suas famosas escadarias, construídas ao longo do leito do rio, despertam em ritmo frenético.
Logo cedo, o povo da cidade alcança as escadarias distribuídas ao longo de sete quilômetros, na margem esquerda do rio, e que dão acesso a ele.
As 98 “ghats”, como são chamadas essas escadas de concreto, representam a ligação entre o terrestre e o divino. Acredita-se que o Ganges desaguou diretamente do céu para a Terra. Ao nascer do lado oposto da cidade, o sol vai gentilmente iluminando as escadarias e as construções –assim como o rosto daqueles que aos poucos surgem das vielas estreitas da parte antiga da cidade.
Embora aos olhos ocidentais o Ganges seja apenas um rio poluído e impróprio para o banho, isso não importa para os indianos, pois, ao se banharem ali, suas almas são purificadas.
Homens, mulheres, crianças e idosos de todas as castas chegam não só para o tal banho sagrado mas também para praticar ioga, fazer oferendas aos deuses hindus e rezar para “mother ganga”, nome carinhoso dado ao rio.
Ao clarear o dia, os indianos já são muitos. Trajando roupas coloridas, trazem jarros nas mãos usados para o banho. É com essa peça que, depois, eles levam a água para casa. Em minutos, o rio está tomado de gente.
Estima-se que cerca de 6.000 pessoas visitem o Ganges por dia. E a música, composta por centenas de vozes que cochicham mantras (espécie de reza) em homenagem a Shiva ou a outras divindades, pode ser ouvida de longe.
Erguida há cerca de 2.500 anos, Varanasi, acreditam os hindus, foi a cidade escolhida por Shiva para morar com sua mulher, Parvati, logo após o casamento. Shiva, o deus da destruição, é o mais poderoso do panteão hindu. Por isso a cidade é tão especial para o hinduísmo, religião que alcança 80% da população do país.
Apesar de Varanasi ser considerada por historiadores uma das mais antigas cidades do mundo, a maioria das suas construções tem apenas algumas centenas de anos de idade.
A última invasão sofrida pela cidade foi dos muçulmanos afegãos, que destruíram templos e arrasaram construções antigas, no século 14. Depois disso, Varanasi foi reconstruída.
O destino preferido dos indianos é a Dasaswamedh Ghat, carinhosamente apelidada pelos viajantes ocidentais de “centro do universo”. Lá, o nascer do dia é celebrado diariamente. Exatas 12 horas depois, o dia se encerra no local com uma cerimônia religiosa em homenagem ao sol.
Nessa hora, dezenas de sinos são tocados, e indianos de todas as partes do país comparecem em seus melhores trajes.
Na Dasaswamedh, todo o caos da Índia parece entrar em harmonia. Tem o vai-e-vem dos barcos transportando os indianos na volta da feira ou fazendo passeios com turistas de todos os cantos do mundo. Os mais numerosos são os japoneses, enrolados em panos para evitar o assédio do povo local –uma das maiores lições de paciência que os turistas têm de desenvolver na viagem ao país.
Há também massagistas, que literalmente andam em cima das costas de seus clientes; barbeiros, que na rua mesmo raspam as cabeças dos meninos órfãos, que tradicionalmente passam por esse ritual quando seus pais morrem e são cremados próximo ao local.
É curioso saber que, ao envelhecer e prever a chegada da morte, hindus de várias regiões do país seguem em uma viagem só de ida a Varanasi. O motivo? Querem morrer lá e realizar o último desejo de sua encarnação na Terra: que suas cinzas sejam jogadas nas águas do rio sagrado.
Dizem que Varanasi abriga centenas de viúvas. Na Dasaswamedh, reúnem-se indianos de castas superiores, que chegam para dar esmolas aos intocáveis –da casta mais inferior– e garantir sua evolução na Terra.
Os hindus acreditam em reencarnação e crêem que seu comportamento em vida determina se nascerão em uma casta superior ou inferior na vida seguinte. Essa é a única forma de mobilidade social. Quem nasce em uma casta morre na mesma casta.
Tudo isso acontece ao mesmo tempo em Dasaswamedh. É possível passar dias inteiros sentado em seus degraus, só observando a movimentação, tomando “chai” (bebida típica indiana, uma mistura de chá preto, leite e temperos) e provando as delícias da comida de rua.
Sou Jansen Packar. Quer saber mais?
O Porão
Desde que Vanessa descobriu que na minha casa há um porão, ela não perde oportunidade em descer lá pra ficar fuçando. Não que aquele ninho de bugigangas tenha as possibilidades de mistérios góticos dos filmes, é que Vanessa é curiosa mesmo.
Foi assim que ontem, ao sair para a área de serviço, me deparei com aquela figura asquerosa no varal. Ela, contrariando as expectativas sobre todas as descobertas possíveis em porões, veio, se rasgando de rir, me dizer que tinha encontrado aquilo no fundo de uma caixa de tranqueiras.
Você vai levar isso embora, suponho.
- Vou achar um lugar bacana pra ele.
Na minha opinião, o fundo da caixa de tranqueiras era um lugar bacana pra ele mas não falei nada. A coisa em questão era um Gato Félix de espuma que tinha quase cinquenta centímetros e foi um daqueles presentes que você ganha e odeia à primeira vista( ganhei quando criança e nem me lembro de quem foi a infeliz idéia, mas sei que aquele bichano frequentou os lugares mais sombrios da casa, até parar no porão).
Na verdade eu sempre tive um medo inconfessável daquele gato preto cabeçudo, olhudo, perna comprida e sorriso sinistro. E eu não ia falar isso pra Vanessa, por isso sugeri que ela doasse para o Lar de Crianças. Ela só me deu aquele olharzinho zombeteiro e não falou nada.
De noite nós fomos com Fernanda, Camila, Ricardo e Márcio num rodízio de pizzas e eu comi demais.
Quando cheguei em casa fui assistir TV e acabei cochilando no sofá. E não tive pesadelo?! Sonhei com o Gato Félix abrindo geladeira, dentro do armário, andando de bicicleta, dançando o créu; o bicho estava em todo lugar. Caí do sofá, pra valer e pra doer, porque bati o joelho na mesinha. Quando ia me levantando, quase caio pra trás de novo: o Gato Félix estava sentadinho na poltrona bem á minha frente, rindo. Sinistro.
Como era ele ou eu, não pensei duas vezes: peguei o bicho pelas pernas e levei ele pra fora. Ia coloca-lo na calçada, mas um aí pensamento bondoso me ocorreu: e se alguém pensasse que ele tivesse sido esquecido ali e resolvesse me devolvê-lo??!!! Então, atravessei a rua e o deixei na lixeira do vizinho.
Tem certas coisas que não devem sair do porão.
Sou Jansen Packar. Quer saber mais?
Meus dias de Professor Pardal
Estava assistindo ao videoclip Good Enough, do Evanescense, e tem um momento em que a Amy Lee retira um livro em branco de uma estante. Daí eu tive uma idéia brilhante ( quase pude ver aquela lampadinha acesa acima da testa).
Fui todo novidadeiro contar para Vanessa, que estava na varanda com Mariana. Elas tinham pregado um coelhinho de pelúcia, que Mariana ganhara de um paquera, no alvo e estavam tentando acertar dardos nele.
Elas me olharam com uma cara que, basicamente, fez-me sentir como um pastel sem recheio.
- Pra quê, JP?
Mais difícil que ter uma grande idéia é tentar explicar essa grande idéia.
Veja bem: a gente coloca livros em branco nas estantes das bibliotecas. Daí, quem achar, pode escrever o que quiser: uma poesia, uma noticia, um palavrão, uma mensagem, uma carta, um desabafo, sei lá.
- Coisas tipo; esta manhã explodiu a terceira bomba atômica e eu fui tomar Coca-Cola no tiozinho da praça?
É.
-Tipo um blog, um diário?
Menos que isso, a não ser que o cara queira voltar lá e escrever outras coisas; é mais como uma máquina fotográfica: vai resgatar o seu instantâneo. Você pega emprestado, mas continua sendo coletivo.
- Que idéia boba, JP! – disse Vanessa misteriosa, depois riu: – Adorei.
- O legal é que você pode escrever o que quiser; já que pode acontecer de ninguém ler.
- Tipo um documento para a eternidade; como aqueles cds da Voyager.
- Sinistro.
- Tem que ter um nome.
- Que tal Livro das Revelações?
Bacana. Já foi usado, mas é bacana.
- Quando vamos fazer isso?
Em breve, numa biblioteca perto de você.
Sou Jansen Packar. Quer saber mais?

